Teoria do Futebol

Tudo sobre Futebol, os metodos, os conceitos, os princípios, 
os processos e toda a organização tatica do futebol!

A tomada de decisão no futebol

Apaixonado como sou pela leitura, muitas vezes vou a lojas procurar livros novos, para satisfazer o meu apetite. E já tenho uma boa coleção, mas com o tempo, estão sempre a sair livros novos, e a coleção nunca está completa. No entanto, no Brasil e em outros países não sei, mas em Portugal, poucos são os livros de futebol que falam do jogo, treino ou algo envolvente. Aparecem imensos livros dos clubes, mas dos mesmos assuntos que escrevemos na nossa comunidade, são poucos infelizmente. No entanto, num desses livros, o Preparar para Ganhar, de José Neto, contém excelentes conteúdos, e vou retirar um pequeno excerto, com todo o respeito pelo autor. Quem estiver interessado em adquirir o livro, pode fazê-lo aqui, e recebê-lo em casa.

Como Mahlo (1969:33) refere, a ação tática ou a ação de jogo, é a “combinação significativa, mais ou menos complicada, de diversos processos motores e psíquicos, indispensáveis à solução dum problema nascido na situação de jogo”. Visto que o jogo é uma sucessão de problemas situacionais, e a solução para estes problemas antes de ser motora, ser sensorial e mental, facilmente se depreende o importante papel desempenhado pela inteligência no futebol. Podemos assim caraterizar a ação de pensamento tático em três fases, que segundo Mahlo (1969:41) “corresponde melhor à maneira como os jogadores tem noção das suas ações”:


1- A perceção e a análise da situação (sendo o seu resultado, o conhecimento da situação)

2- A solução mental do problema (sendo o seu resultado, a ação de uma tentativa)

3- A solução motora do problema (sendo o seu resultado, a ação prática).


Infelizmente, muito se fala só de organização tática, e alguns não sabem sequer o que dizem. No que diz respeito a blogs, muitos publicam apenas os sistemas táticos utilizados, duas ou três movimentações, e fazem disso, uma verdadeira análise de futebol. Mas pelo excerto do livro referido, facilmente sabemos que existe algo mais do que organização tática. Existe pensar o jogo, pela parte do treinador, e pensar o jogo pela parte do jogador, que é por este membro que se desenrolam as situações dentro de campo. Ora, se é o jogador, que desenrola as ações que podem levar a sua equipa a marcar ou a não sofrer golo, este precisa saber pensar o jogo, conhecê-lo e saber o que fazer em cada situação, o mais rapidamente possível. De facto, é uma tarefa complicada, e cada vez existe menos espaço para erros.


Esta é uma razão extremamente importante do porquê do treino, onde se engloba a ação técnica, a ação tática, o fator psicológico e o fator físico. São quatro variantes, que trabalham todas em conjunto, e que não podem ser treinadas de parte. Não só não faz sentido treinar em partes, como não é possível fazê-lo para criar o alto rendimento.


1- A perceção e a análise da situação


Esta etapa, diz respeito ao jogador, que se encontra numa determinada situação, perceber o que se está a passar, da forma mais correta como possível. Analisar, não chega. É preciso ser rápido a analisar e perceber o que está a acontecer no jogo, para que a sua decisão nem a sua ação sejam erradas. Por isso é que existem treinos em especificidade, onde o treinador precisa ser sempre interativo com os jogadores, e por isso é que existe um modelo de jogo, para orientar o treino em especificidade.


Se queremos ganhar, precisamos ser organizados, e a única forma de o conseguir, é fazer com que os jogadores saibam jogar organizados. Em algumas situações, todos os jogadores precisam compreender que devem organizar para defender. Em outras, apenas jogadores próximos à bola é que precisam fazer algo, como desmarcar ou entrar em contenção. Os comportamentos não são todos iguais para todos os jogadores, nem há uma ordem daquilo que vai acontecer no jogo. Não sabemos quando vamos perder a bola, ou quando vamos ganhá-la, nem sabemos se um passe ou um cruzamento vai sair bem. Por isso é tão importante que os jogadores reconheçam o que vão fazer.


Podem existir dezenas ou centenas de situações diferentes no jogo, e cada jogador precisa perceber em qual se encontra. Esta etapa é a base do edifício, e se não for bem tratada por parte dos jogadores, e previamente pelo treinador durante o treino, então não temos como construir essa casa, que é resolver bem a situação de jogo. Como disse Mourinho: "Um grande pianista para ser bom não precisa de andar a correr à volta do piano ou de fazer flexões em cima do piano. Para ser bom basta tocar piano"


2- A solução mental do problema


Esta é a segunda fase da ação de decisão de um jogador, e é nesta fase que o jogador vai decidir bem ou decidir mal, em função daquilo que sabe de futebol e em função do que analisou na primeira etapa. Por exemplo, se o jogador vê um jogador desmarcado e um jogador marcado, e está sob pressão, precisa passar a bola a um deles. Se os seus conhecimentos não lhe permitem distinguir qual é a melhor linha de passe, ou se este não viu que um colega de equipa está marcado, e faz um passe errado, a decisão é má e a equipa pode perder a bola. Mas, se os seus conhecimentos lhe dizem qual é a melhor linha de passe e o jogador avaliou bem qual a linha de passe que deve tomar, então escolheu bem e vai realizar a ação logicamente correta.


Se analisar mal, a sua decisão tem muitas mais hipóteses de ser a errada. Mas mesmo que faça a análise correta, pode tomar a decisão errada, pois a escolhe em função daquilo que percebe/conhece de futebol. Mais uma razão, porque o treino é tão importante, e devemos procurar fazer equipas jogar à bola em situações parecidas com as do jogo em vez de fazer um treino qualquer apenas para queimar calorias.

 

3- A solução motora do problema


Agora, não basta apenas conhecimento, nem visão de jogo. Agora é necessário que o jogador saiba concretizar aquilo que viu. Agora entra a dimensão técnica do jogador, pois vai realizar aquilo que decidiu fazer. Entre as duas linhas de passe, escolheu uma e vai tentar passar a bola. Mais tempo de treino com a bola no pé, ajuda o jogador a ter melhor capacidade de passe. E se o treino está orientado para todas as dimensões, mais fácil ainda será realizar a linha de passe escolhida. Agora, se o jogador não sabe passar a bola, por muito simples e fácil que seja detetar e escolher uma linha de passe, o passe sai torto, com força a mais ou a menos, ou difícil de receber, e o que pode traduzir numa perca da bola.


Mais uma vez insisto no treino em especificidade, onde se procura desenvolver as dimensões em função do jogo. Fazer os jogadores correr em volta do campo, não os vai ensinar a decidir melhor, nem vai ajudar a treinar o passe, para esta situação que foi aqui descrita. Jogar, em função do jogo, com níveis de intensidade das ações e volume das ações que condicionam e desenvolvem o jogador, isso sim é treinar.


Conclusão


Deixei aqui um exemplo do livro, que são apenas algumas linhas de texto, mas que traduzem muito conhecimento. Claro que, apenas a leitura de um livro não é suficiente, nem de dois, nem de três, para se ser profissional. É necessário compreender diversas áreas, como treino, psicologia, organização tática, anatomia, e outras, e depois saber aplica-las. Ser treinador de sucesso não é fácil, mas é alucinante.

Insira o seu e-mail e receba todas as novidades

Assine agora e receba todas as novidades por e-mail

E faça download do ebook 72 exercícios para as fases do jogo imediatamente. Clique aqui para saber mais
endereço de email
*
campayn