Teoria do Futebol

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Ter mais bola: “a ideia” ou “o cliché”? - por Hugo Correia

Um treinador de futebol, entre muitas outras coisas, é feito de crenças e de trabalho. O papel das crenças é fundamental uma vez que serve de bússola para o longo e tenebroso trabalho do treinador que em última instância é espelhada pelo desempenho da sua equipa em campo.

Se pudéssemos conhecer os 2 treinadores mais metódicos e trabalhadores de todo o mundo e observássemos o comportamento das suas equipas provavelmente teriam comportamentos bastante distintos, mais ainda caso estes estivessem inseridos em contextos sócio-culturais diferentes.

Estas crenças, como quaisquer outras, nascem da observação de modelos de sucesso. Modelos que na prática demonstraram a sua eficácia e que despertam o interesse e o estudo dos que por ele ficaram fascinados.


Num passado recente tivemos uma superequipa, o Barcelona de Guardiola. Fascinou o mundo com um ataque posicional de sonho, ganhando 2 Ligas dos Campeões, 2 Supertaças Europeias entre muitos outros troféus.


Isto criou certamente uma mudança cultural, fazendo o mundo olhar de forma diferente para as vantagens que este tipo de método ofensivo traz a quem o pratica.


Creio que atualmente (e principalmente na cultura Portuguesa) estamos a respirar o Paradigma Guardiola. Isto é observável nos escalões de formação onde os jovens implementam cada vez mais este método ofensivo e assistimos a cada vez mais artigos de opinião e publicações nas redes sociais aludindo ao mesmo, incrementando esta tendência.


Surge então um problema: quando nos associamos a um dado paradigma, temos uma inclinação para 1) concordar com grande parte dos seus pressupostos e 2) opormo-nos a grande parte dos pressupostos das demais metodologias.


Antes de avançar, convido o leitor a observar o que a ciência nos vai oferecendo, uma vez que isto nos poderá ajudar a compreender este fenómeno.

Artigo 1

Artigo 2

Artigo 3

Artigo 4

Olhando os 4 artigos anteriores verificamos que o contra-ataque foi considerado o método mais eficaz (nas respetivas investigações) para a obtenção do golo.

Isto deverá, no mínimo, fazer-nos refletir.


Não é de todo, a minha intenção dizer que o contra-ataque é melhor ou pior que o ataque posicional.

O que pretendo é contrariar o denominado efeito “spotlight” onde só observamos o local para onde a luz aponta. Creio que temos que expandir esta visão.


A minha visão do assunto é a seguinte: eu não consigo gostar mais ou menos de um ataque posicional comparativamente a um contra-ataque. Eu gosto do futebol eficaz. Do desenho do ataque que “faça mossa” na equipa adversária tenha ele 2, 3 ou 10 passes, desde que a equipa demonstre equilíbrio posicional.


Citando Ioan Lupescu, director técnico da UEFA “Possession is only important for the majority of them if you have progression, if you have penetration, if you have a final act at the end”.


Tim Sherwood, preferiu igualmente uma frase interessante: “What happens in between is immaterial really. It’s all right to have nice pretty patterns and you can wear teams down by keeping possession and that’s what I want to do, but you need to penetrate”.


Ou seja não se trata se o ataque é mais ou menos rápido. Trata-se da progressão, da penetração, trata-se da eficácia. Entenda-se por eficácia a capacidade de explorar situações favoráveis quer em termos numéricos, quer de espaço e de criar situações de finalização (uma vez que é desta forma que chegamos ao golo) seja em contra-ataque, seja em ataque posicional.


Pensar desta forma faz-me refletir também acerca do treino. Treinar a equipa para ser competente em ambos os métodos ofensivos, pensando e fornecendo aos jogadores as ferramentas para isso (indicadores coletivos de decisão que lhes permitam perceber se aquele cenário sugere o comportamento X ou Y mas também os preparar física-técnica-psicologicamente para isso).


Este fenómeno não só dá que pensar como pode ter ligação com aquilo que Jean-François Domergue, responsável pelo projeto UEFA Academy sugere: “European teams are not developing players who go direct for goal”.


É uma hipótese que não posso nem me atrevo tentar comprovar, mas que deixo também para reflexão, uma vez que à primeira vista, parece-me que faz muito sentido.

O que penso

A representação mental que tenho da “equipa perfeita” é a equipa híbrida, capaz de se transformar e adaptar a diferentes estilos de jogo tendo em consideração o adversário ou aspetos como o resultado do jogo.

Esta ideia é concordante com os resultados do estudo de Machado, Barreira e Garganta (artigo 5).

Artigo 5

Em suma, há diferentes forma de chegar a um destino. Seja de mota, seja de carro, não interessa qual destes gostamos mais. Por vezes fará chuva, por vezes sol. O ideal será sabermos conduzir ambos os transportes e quando chegar o momento de fazer a viagem, em função do contexto e das adversidades, selecionar convenientemente o melhor meio (umas vezes será o carro, outras a mota será a melhor opção).

Agora (a meu ver), não será razoável à partida, dizer que um ou outro é melhor. Dizer que por gostarmos mais de levar o carro, o vizinho que anda de mota “não tem ideias”.


Há gente mais ou menos competente, que tenta usar um ou outro método ofensivo.

Não interessa o método, interessa a eficácia da sua implementação.

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