Teoria do Futebol

Tudo sobre Futebol, os metodos, os conceitos, os princípios, 
os processos e toda a organização tatica do futebol!

Os processos pré-concebidos e a criatividade

Tenho observado que existem imensos treinadores com modelos de jogo concebidos para as suas equipas, com processos bem definidos, com referenciais para realizar os mesmos, tudo mecanizado. Ao associar o modelo de jogo aos princípios que lhe dão forma, à capacidade dos jogadores interpretar esses princípios e aos recursos disponíveis para ministrar esses princípios aos jogadores, muitas vezes estamos mais preocupados com a organização tática do que as outras dimensões. Por vezes, até deixamos passar a questão da forma como todas as dimensões trabalham em conjunto e como as podemos equilibrar para alcançar os resultados desejados.



Mas, todas essas dimensões, seja a dimensão física, técnica, tática ou psicológica, todas estas partem da natureza humana. A forma como os jogadores se relacionam entre si, a capacidade dos mesmos em se sobressaírem a cada dificuldade que surge no jogo, a forma como cada um lida com determinada situação em função do contexto que está inserido naquele momento, tudo parte da natureza humana.

 

Então, definir um modelo de jogo, não pode apenas depender de processos consolidados que usamos para lhe dar forma. Não podemos apenas pedir aos jogadores que façam alguma coisa dentro do campo, e treinar para que se tornem bons nisso. Por vezes, fazer apenas por fazer, para mostrar resultados, para criar um “fio de jogo”, apenas leva os jogadores a montar uma solução errada para o contexto em que se inserem. Pode o treinador, fora das quatro linhas, pedir aos jogadores, para realizar determinadas movimentações, que em nada resolvem o jogo? É como pedir a um jogador para fintar três adversários, mas numa realidade muito maior, que é um campo de 11x11, onde o terreno de jogo não pode ser ocupado por inteiro sem que haja desequilíbrio entre jogadores da mesma equipa.

Será tudo uma questão da mecânica do modelo de jogo?


Mecanizar jogadores não é mais do que lhes retirar liberdade para pensar e decidir, não é mais do que impedir a natureza do próprio atleta. Mecanizar uma pessoa, é até um termo que não soa muito bem, principalmente quando essa pessoa está inserida num contexto como são os jogos coletivos, neste caso o futebol.


Como pode o treinador, fora do campo, tomar uma decisão por cada um dos jogadores em cada situação que enfrentam? Porquê criar um modelo de jogo, onde os seus princípios de jogo, sejam macro ou micro-princípios, tendem a levar os jogadores a um comportamento rígido, impedindo-os de compreender o jogo? Mais ainda, porque encontramos muitos treinadores de formação, mais focados em vencer, com um modelo de jogo, do que evoluir os seus pupilos de apenas 9 anos de idade?


No dia que alguém nomear a criatividade como um princípio, finalmente grande parte dos treinadores dará oportunidade aos seus jogadores para os deixar pensar o jogo, e os tornar rápidos a decidir, e a decidir bem. Enquanto isso, veremos imensas equipas com formas de jogar bastante rígidas, definidas apenas por processos, sem pelo menos apresentarem um modelo de jogo ou alguns princípios que enganem o ilustre adepto.

Porquê ser tão rígido? Porque impedir os jogadores de tomar decisões se são eles mesmos que estão no campo, sendo obrigados a fazê-lo?


Podemos desenhar um modelo de jogo, com processos, tudo bem mecanizado e treinado de forma que os jogadores o aprendam. Ou então, podemos criar um modelo de jogo, onde os próprios princípios e a relação que todos eles fazem estimule a criatividade dos jogadores.




Geralmente, o processo da tomada de decisão depende sempre da forma como o atleta decifra os dados que coleta. Se este é capaz de ler uma situação da forma correta, a sua decisão será mais fácil e qualitativa. E se o modelo de jogo facilita a tomada de decisão desse atleta, tudo tende a melhorar todas as relações entre atleta e colegas de equipa.É a diferença entre fazer um jogador correr sem nexo, ou orientar o jogo para que este possa progredir, com menos dificuldades e menos riscos de perder a bola. É a diferença entre mecanizar o jogador ou estimular a sua criatividade e decisão.

Como dar forma a esse modelo de jogo?

 

Tudo isto parte da teoria, mas podemos dar forma às ideias. Idealizar, faz parte de evoluir. Fomentar as movimentações, abrir várias linhas de passe, ou escolher soluções diferentes quando as mesmas soluções não dão resposta adequada. Fazer os jogadores, durante o treino, enfrentar situações até 5x5 por exemplo, para que mais jogadores possam tocar na bola e tomar mais decisões. Fomentar a posse de bola, para que controlem o jogo invés de correr atrás. Fazê-los passar por situações difíceis durante o treino, para que percam o medo, para que aprendam a jogar sem stress. E além de fomentar a posse de bola, tecer planos de jogo que qualifiquem ter a bola, que façam os jogadores trocar a bola pela qualidade, e não pela quantidade.

 

O método de treino escolhido é extremamente importante para dar forma ao modelo de jogo que queremos para a nossa equipa. Transformamos a equipa durante o treino, enraizando hábitos nos jogadores, capacitando-os para fazer no jogo, exatamente o que fazem o treino.

 

Se capacitarmos a condição física dos jogadores durante a semana, estes podem ter bastante energia durante o jogo, mas não sabem o que fazer. Não tem sequer um processo que os ligue enquanto equipa. Se capacitamos a condição técnica dos jogadores, estes serão capazes de fintar tudo e todos, na ironia da palavra, mas não saberão quando fintar e se o devem fazer em determinado contexto. Ainda, se apenas envolvermos os jogadores em treinos de natureza tática, a bola até parecerá queimar nos pés dos jogadores durante o jogo. Devemos treinar todas dimensões em simultâneo, para que o jogador saiba o que fazer com a bola (dimensão tática), saiba como tratar a bola (dimensão técnica) e que tenha forças para realizar ações com a bola (dimensão física). Vale não esquecer a dimensão psicológica, onde moralizamos o jogador para realizar tal ação, e porquê a realizar. Então, o nosso método de treino deve trabalhar as quatro dimensões em simultâneo, procurando traduzir o modelo de jogo na equipa.

 

Como desenhamos o nosso modelo de jogo?

 

Tudo depende da forma como interpretamos o jogo. A mesma ideia não é interpretada da mesma forma por pessoas diferentes. Mesmo um treinador pode ter a melhor ideia do mundo, e os seus jogadores não a compreenderem.Fora isso, qual é a melhor forma de desenhar um modelo de jogo? Se queremos os jogadores a pensar o jogo, então temos que lhes pedir para que controlem o jogo, temos que lhes dar a bola. Como podem os jogadores pensar o jogo, se a bola está na posse do adversário? Não queremos ter 70% de posse de bola sem saber o que fazer com ela. Queremos ter a bola, procurar soluções, procurar e abrir espaços, movimentar, criar ruturas, nem que o resultado seja apenas 50% da posse de bola. Importa é a qualidade da forma como tratamos a bola, e não o tempo que a temos.

 

Então, ao desenhar um modelo de jogo nesses termos, o que usamos?

 

Princípios de jogo, que se relacionem entre si, dentro dos momentos de jogo, e que estes também se relacionam entre si. Se queremos um modelo de jogo com o objetivo de controlar o jogo, então a forma como tratamos a bola é o objetivo primário e o golo é o objetivo secundário. Se queremos chegar ao golo, primeiro temos que construir jogo para isso, e precisamos ter a bola na nossa posse. Não podemos chegar ao golo de forma instantânea. Precisamos de levar a bola para perto da baliza, para finalizar (daí as fases: saída de jogo, construção de situações de finalização, finalização). Saber jogar a bola em todas estas fases é o essencial, e ter 70% de posse de bola como o Barcelona pode ser apenas uma consequência.

 

Podemos usar um método para recuperar a bola perto da baliza adversária, e tentar atacar a partir daí, ou podemos esperar que o adversário caia no erro de perder a bola, e tentarmos atacar de onde estivermos, o mais rapidamente possível. O que importa é jogar com a cabeça levantada e decidir, invés de fazer lances rápidos sem sentido. Podemos fazer lances rápidos e bem decididos, sem ter que fazer tudo como se fosse mecanizado. Por exemplo, um determinado treinador, durante todo o processo ofensivo, pede bola no lateral, bola no médio defensivo, bola longa para o extremo (junto à linha lateral, mas sem grande profundidade), bola no 10, e passe a rasgar ou passe para o outro extremo. Mas quando repetimos esse processo três ou quatro vezes, o adversário facilmente descobre que pode fechar a ligação entre pivot defensivo e extremo direito, e todo o processo será anulado. Depois, muitas vezes não temos soluções. Invés disso, se ensinarmos a nossa equipa a passar a bola em função do espaço e não em função dum processo mecanizado, oferecemos ao jogador, a oportunidade de escolher uma solução no treino que não podemos prever.

 

O treinador está fora do campo, consegue controlar a maior parte dos fatores do jogo apenas durante o treino. Durante o jogo, existem muitos mais fatores que no treino, e o treinador não pode controlar a maior parte deles. É nesse aspeto que surge o jogador, não como ferramenta ao serviço do treinador, mas como pessoa com disponibilidade para pensar o jogo, para decidir e para agir. É justamente o jogador que pode ajudar o treinador a controlar fatores que este não consegue controlar. Durante o treino, o treinador escolhe quem faz e como faz, e onde faz. Durante o jogo, o treinador não controla o adversário, nem é o treinador que toma conta das ações que lhe fazem frente. Esse papel é do jogador, que vai enfrentar o adversário, e por isso, precisa pensar o jogo, precisa analisar para decidir, porque a sua ação depende imenso da sua análise.

 

Mas porquê princípios? Porquê criatividade? Porquê liberdade para o atleta?

 

Talvez seja mais fácil responder a uma pergunta. Porquê pedir a um jogador, para fazer algo que fará perder a posse de bola? Porque criar um processo mecanizado, onde numa fase desse processo, se pede ao jogador para passar a bola a um colega de equipa rigorosamente marcado pelo adversário? Porque pedir a um jogador, para ser tão rígido quanto possível, e não o deixar pensar, se ele, enquanto está dentro das quatro linhas, vê cada lance de uma perspetiva bem melhor do que quem está fora das quatro linhas?

 

Os processos de jogo rígidos não permitem o jogador ter liberdade para pensar e tomar uma decisão bem melhor que aquela que esses princípios pedem. Os princípios de jogo, numa equipa estruturada e organizada, aliada à liberdade para ser criativo e para procurar soluções (nem que essas precisem ser orientadas), oferecem a liberdade ao jogador para pensar. Se não dá para tocar num jogador, toca em outro. Se não dá para atacar pelo lado esquerdo, leva a bola para o lado direito. Se não há espaço para atacar, circula a bola, sempre pronto a recuperá-la, desorganizando o adversário. Por vezes, importa mais ser paciente do que ser rápido a agir. José Mourinho, no FC Porto, já vão 10 anos, defendia que a sua equipa devia ser capaz de descansar com a bola no pé, e ainda hoje, há treinadores que não compreendem isso. E este ano, palavras de Pep Guardiola: “A posse de bola é apenas um método para ordenar a equipa e desmontar a equipa adversária”. O próprio pai do Tiki-Taka afirma que a posse de bola é um método para o seu jogo, afirma que usa a posse de bola para conseguir desorganização. Coloca a posse de bola acima do jogo, e usa a posse de bola para desorganizar, invés de ter a bola.

Assine agora e receba todas as novidades por e-mail

E faça download do ebook 72 exercícios para as fases do jogo imediatamente. Clique aqui para saber mais
endereço de email
*
campayn