Teoria do Futebol

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Princípio da Especificidade

Treinar em especificidade, treinar algo específico. Mas, no futebol, o que é específico e porque treinar específico? Antes de perceber isso, convém perceber o jogo. São 11x11 dentro do campo, surgem várias situações diferentes, em diferentes zonas do campo. Alguns autores interpretam um jogo como um caos constante, no qual precisamos de criar uma organização. É então que surge o modelo de jogo (MDJ) como forma de reduzir esse caos, e o treino para o operacionalizar. Então, para trabalhar esse MDJ no treino, não podemos criar exercícios e situações aleatórias, que em nada tem a ver com as ideias que pretendemos operacionalizar. É aí que surge a especificidade no treino.

Modelo de jogo e exercício específico


Operacionalizar um MDJ é diferente de treinar futebol sem um objetivo. Cada treinador tem ideias diferentes dos restantes treinadores. Sabendo então que existem vários MDJ, e que cada um deles é diferente de operacionalizar dos outros modelos, cada exercício que o treinador utiliza deve servir as ideias que pretende operacionalizar. Se o treinador utiliza um MDJ com pressão alta constante, os exercícios a utilizar devem ir de encontro à pressão alta. Já outro treinador, que monta um autocarro constantemente e que se serve do contra-ataque, deve utilizar exercícios que permitam operacionalizar a sua ideia. Os exercícios do segundo MDJ não servem para operacionalizar o primeiro MDJ, nem o contrário.

Se ele utiliza, deve ser bom exercício


Ninguém tem necessidade daquilo que desconhece. Deixei de interpretar esta frase como “eu não preciso daquilo”, e comecei a interpretar como “eu preciso daquilo mas não sei que existe, e devia procurar saber”. Muitos treinadores procuram um exercício que em nada serve de específico para o MDJ que pretendem operacionalizar. A ideia de utilizar um exercício que viram um grande treinador a utilizar e que portanto deve ser bom, está errada. Se não temos respostas, devemos procurá-las e depois entendê-las. Por exemplo, vamos supor que vimos Mourinho a utilizar um exercício sem qualquer tipo de oposição, passe e poucas movimentações, num dia de recuperação. Qualquer treinador que não perceba o porquê deste exercício, que não saiba como utilizá-lo, deve colocar os jogadores a passar a bola uns aos outros, sem critério? Durante o jogo, também devemos fazer passes sem critério?


Treinar o específico


Para Guilherme Oliveira (2009), só se considera algo especifico se estiver relacionado com o MDJ. A partir desta ideia, devemos pensar que, conforme a nossa ideia de jogo, devemos criar exercícios que possam desenvolver o jogar da equipa segundo as orientações dessa ideia. Cada MDJ indica as especificações que devemos trabalhar a equipa, para cada momento de jogo e para a organização da equipa. Se eu tiver um modelo de jogo em mãos, onde se pede que a saída de jogo se faça em largura máxima, com os laterais bem abertos, e com 1 ou 2 médios a dar linhas de passe em função de a bola está nos corredores laterais ou centrais, então preciso de exercícios que façam os jogadores trabalhar isso. Assim estou a criar exercícios específicos para uma situação específica, onde os jogadores podem trabalhar e descobrir como desenrolar o jogo a partir dessa situação.


A especificidade do todo e das partes


Uma equipa é complexa. Não existem apenas jogadores, grupos de jogadores ou 11 jogadores em campo. Na verdade, existe tudo isso, e mais do que isso. Existe complexidade, de tal forma que o coletivo será mais forte se o individual é forte, assim como o individual será mais forte se o coletivo também o é. Os princípios específicos do jogo são claros (penetração, contenção, cobertura defensiva, cobertura ofensiva, mobilidade, equilíbrio, concentração, espaço), e estes não trabalham sozinhos. Por exemplo, ainda que um jogador com qualidades técnicas suficientes para tal, siga com a bola em direção à baliza (penetração), de pouco lhe servirá seguir com a bola sem um objetivo, e sozinho, perante três ou quatro jogadores. Para isso, devem juntar-se colegas em apoio, que ofereçam coberturas ofensivas e espaço, de forma a desequilibrar os adversários e oferecer mais opções ao portador.


Guilherme Oliveira (2009) afirma que operacionalizar um modelo de jogo deve assumir várias dimensões/escalas: coletiva, inter-sectorial, setorial e individual. Então, não podemos deitar para trás nenhuma das várias dimensões/escalas referentes ao modelo de jogo. Sabendo que os princípios específicos devem trabalhar em conjunto, não estaríamos a trabalhar em especificidade ao dissociar uma destas dimensões do nosso modelo de jogo. Um jogador com a bola no pé só pode tomar boas decisões se o coletivo lhe permitir tomar essas decisões, oferecendo apoios e protegendo-o. Por mais inteligente que seja o jogador, se o coletivo não lhe oferece alternativas, ele não terá por onde decidir. Por outro lado, por mais opções que o coletivo ofereça ao portador da bola, mas este não é capaz de tomar uma decisão coerente, este não irá decidir bem muitas vezes. Então, sabemos que não podemos dissociar individual nem coletivo, e não vamos trabalhar em específico quando o dissociamos, porque podemos dissociar no treino, mas não podemos dissociar no jogo.


Viver o jogo, sentir o jogo


Para Guilherme Oliveira (2009), o princípio da especificidade só se cumpre quando os jogadores compreendem as finalidades dos exercícios que realizam. E eu concordo. De nada adianta fazer os jogadores treinar, sem saber o que estão a treinar. Por muito bom que seja o exercício, e que vá de encontro aquilo que o modelo de jogo pede para ser operacionalizado, a ideia que pretende implementar não passa do bloco de apontamentos se os jogadores não aprenderem aquilo que o modelo de jogo pede. Jogadores não são máquinas, onde instalámos um programa e está feito. São seres complexos, e precisam trabalhar, descobrir, aprender e se profissionalizar de acordo com a ideia de jogo do treinador. A este, cabe toda a responsabilidade de o conseguir.


Frade (2006), acrescenta que o treinador não deve apenas transmitir ideias, mas os jogadores devem vivenciá-las. A estes, é necessário conseguirem obter feedback, sentindo as ideias que o modelo de jogo assim pede, para que possam tomar decisões por si durante o jogo. Como tal, o treinador deve criar exercícios específicos em função do MDJ que os jogadores possam repetir várias vezes, para que possam experimentar o máximo e descobrir quanto possível. A experiência vem de situações vivenciadas, e se no jogo não convém cometer erros, é no treino que existe espaço a erros, em que não existe pressão para evoluir, onde o jogador mais pode adquirir experiência e se adaptar ao modelo de jogo.

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