Teoria do Futebol

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Influência das inclinações pessoais na eficácia em jogo (Segundo Garry Kasparov)

Muitos conhecerão Garry Kasparov. Um ícone e uma lenda no xadrez à escala mundial. Campeão mundial durante 15 anos (1985 a 2000) tendo obtido essa proeza pela primeira vez com apenas 22 anos de idade


Através de relatos de diferentes contextos podemos traçar paralelismos que nos levam a refletir sobre cenários nunca antes por nós vivenciados. Estes, permitem-nos criar planos de ação hipotéticos para, quando nos depararmos com situações semelhantes, estarmos melhor preparados para ultrapassá-las com eficácia.


O presente artigo tem como principal objetivo demonstrar de que forma qualquer um de nós para além de ser agente ativo numa dada aprendizagem com articulação de sentido, somos em simultâneo responsáveis pela criação de barreiras que atrapalham a nossa própria evolução. 

Enquanto treinadores, temos um conjunto de conhecimentos que vão sendo alicerçados em crenças e o inverso também acontece. Em certos momentos, um dos problemas dos treinadores é: “qual foi a razão do meu insucesso? Terei que modificar os meus métodos ou se por outro lado, terei que repensar as minhas crenças, aquelas que guiam os meus métodos?”. Esta introspeção é importante para que saibamos por onde realizar reformulações capazes de reverter essa situação de insucesso (que em qualquer momento das nossas carreiras será inevitável). Regra geral é que as crenças do treinador, no meu ponto de vista, são mais sensíveis e difíceis de serem alteradas quando comparadas com o método. 


Neste sentido, partilho com o leitor algumas citações de Kasparov, alguém que não estando ligado à modalidade do futebol, foi um desportista de elite e que nos pode ajudar a compreender um pouco melhor o impacto de uma “má crença”.

“Nem sempre é fácil aferir o verdadeiro valor do material. Todos nós temos ligações especiais a certos bens que têm pouco que ver com o seu valor objetivo. Esses laços sentimentais podem distorcer consideravelmente a nossa capacidade de avaliação, quase sempre de forma potencialmente perigosa. Quando era criança, a minha peça preferida era o bispo, por nenhuma razão em especial de que me consiga lembrar. Mesmo nos meus primeiros jogos, acreditava piamente no poder do bispo, e evitava a todo o custo perdê-lo, um hábito que muitas vezes se revelou negativo. Outros jogadores principiantes podem sentir-se atraídos pela capacidade rara de saltar do cavalo ou então, em vez disso, ganhar medo a esta tão imprevisível peça.”

Apesar de ser recorrente afirmar-se que não há “boas” ou “más” crenças, curiosamente Kasparov nesta passagem contradiz um pouco essa ideia. Como revela, tinha uma crença enquanto era criança: o bispo trata-se de uma peça de extrema importância e logo, deverá protege-la ao máximo. O que nos conta é que, pelos vistos atribuía-lhe uma importância superior àquela que lhe reconhece agora, o que, na altura, lhe foi condicionando quer o posicionamento, quer a movimentação das suas peças, trazendo-lhe consequências negativas ao nível do seu jogo posicional. 


Poderemos questionarmo-nos: porquê a sua fixação com o bispo?


Segundo este grandmaster do xadrez, é comum quantificar o valor o material de xadrez dizendo que 1 bispo vale 3 peões. 


Para quem não está muito familiarizado com o jogo de xadrez, o bispo trata-se de uma peça que se pode movimentar quantas casas queira em linha diagonal até que uma peça lhe obstrua o caminho e para além disso, só se pode movimentar numa só cor. Ou seja, um bisco colocado em casa preta nunca poderá comer peças colocadas em casas brancas (metade das casas do tabuleiro). Vemos inicialmente já uma condicionante ao nível do seu movimento uma vez que só se pode movimentar por metade das casas do tabuleiro (32 das 64). Com isto traçamos uma inferência básica: caso tenhamos muitas peças colocadas em casas pretas, por exemplo, o nosso bispo colocado em casa preta terá imensas dificuldades para nos acrescentar algo de positivo e logo, torna-se uma peça momentaneamente fraca. Mesmo não sendo experts no xadrez, percebermos que sacrificar algumas peças em função de outras que pouco nos podem acrescentar ao nível do jogo posicional será uma estratégia de risco. 


Então qual a origem desta fixação de Kasparov com o bispo? Estas inferências faladas anteriormente eram conhecidas do jogador desde muito novo... 


Porém imaginemos nós agora que, estamos numa situação em que temos um bispo em posição fraca e um peão que está em boa posição para chegar ao final do tabuleiro e nos repor uma rainha que perdemos anteriormente... neste caso, o bispo, ainda que se diga que valha 3 peões, passa a valer menos do que 1 único peão...

Transpondo para o futebol...
... ainda que estejamos convencidos que o ataque posicional é uma forma mais segura de chegar ao golo, temos de perceber quando é que o jogo pede que joguemos de forma mais vertical...
... ainda que estejamos convencidos que a componente tático-estratégica seja a mais importante na preparação da nossa equipa, temos de perceber quando o problema da nossa equipa está mais ligada a fatores técnicos, físicos e/ou psicológicos para que possamos, ainda que através de exercícios mais analíticos e direcionados, prepará-la melhor para as exigências do jogo de futebol... 

O facto de Garry revelar este acontecimento significa que para evoluir na eficácia do seu jogo teve de compreender esta fixação que tinha para pudesse dar o passo em frente e subir de patamar enquanto jogador. Para isso, contou com a ajuda de Botvinnik, o seu treinador, outrora também campeão mundial.

“Uma parte significativa da pesquisa intensiva que Botvinnik fazia acerca dos seus adversários era dedicada a descobrir este tipo de inclinações pessoais na forma de eles jogarem. Passava os seus jogos a pente fino, em busca de erros, tentando depois organizá-los por categorias para que pudesse utilizá-los mais tarde. Nos seus ensinamentos, Botvinnik deixou claro que o pior erro era aquele que era fruto de um mau hábito, uma vez que nos torna previsíveis.”

As crenças são fundamentais. Porém o jogo, seja de xadrez seja de futebol, é algo tão complexo que, por mais inovadoras ou convencionais que sejam as nossas representações mentais, uma coisa é certa: aquilo que acreditamos ser melhor (bispo, ataque posicional, componente tático-estratégica), ainda que na maioria das situações constatemos que isso é verdade, a dada altura deixa de ser (como o caso do peão, contra-ataque, fatores técnicos, físicos e/ou psicológicos). 


Acredito que, tão importante quanto esta formulação mental das componentes que consideramos mais importantes para o treino e jogo, é a capacidade de reconhecer os momentos em que a teremos de inverter, em prol da eficácia, em prol do sucesso, de uma forma coerente, consistente e sustentada (e não apenas, a mudança porque sim).


Isto porque, as nossas crenças, a dada altura falharão. Será uma constante (do pouco que sei, disto tenho a certeza). Principalmente se forem estáticas e não aprendermos com as novas experiências. Passamos a ser previsíveis. Deixamos de ser predadores para deixar a ser presas. Para finalizar e corroborar esta última ideia, deixo-vos com uma última citação de Garry Kasparov.

"No xadrez, ou em qualquer outra atividade, não se demora muito tempo a perceber que existem muitas outras coisas para além do material. A primeira vez que sofremos um xeque-mate apesar da nossa superioridade material aprendemos uma importante lição. O valor do rei acaba sempre por se sobrepor a tudo o resto no tabuleiro, e o nosso sistema de valores começa a ajustar-se. Percebemos então que existem outros fatores que podem ainda ser mais importantes.”

Um bem haja

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