Teoria do Futebol

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Futebol e geometria - Delimitação do espaço de jogo

O treino representa um processo de ensino-aprendizagem onde o treinador, conjuntamente com a sua equipa técnica, almeja uma eficaz transmissão e aplicação de conteúdos técnico-táticos, trabalhando igualmente fatores físicos e psicológicos capazes de potenciar a performance da equipa. 


Este “mar“ de conteúdos é frequente e sistematicamente filtrado e hierarquizado, para certificar que aquilo que chega ao terreno de treino, é aquilo que a equipa (coletivamente) e os jogadores (individualmente) mais precisam e no momento em que mais dele carecem.


Na manipulação de certas variáveis dos exercícios de treino (tais como: tempo, número, espaço, regulamento, outros) o treinador consegue aumentar a propensão e direccionalidade daquilo que quer trabalhar. Significa então que, apesar do treino não ser uma ciência, o treinador e respetiva equipa técnica têm que reconhecer o impacto mais comum aquando da alteração destas variáveis naquilo que é o output de performance. 


Vejamos dois exemplos representativos de conversas entre equipas técnicas que demonstra a importância da mencionada manipulação dos constrangimentos do exercício de treino: 


1. Queremos aumentar a velocidade de transição da equipa de coletes vermelho, não está a ser como queríamos. Como o trio da frente da equipa de coletes azuis está sem jogadores velozes para de imediato ameaçar os alvos, a transição dos vermelhos não é suficientemente rápida. Após a primeira pausa, vais aproximar 7 metros as balizas dos vermelhos. Ficamos com um espaço efetivo de jogo menor. Se virmos que ainda assim não estiver a resultar, na segunda paragem aumentas 2 metros cada uma das balizas.


2. Os nossos médios neste próximo jogo poderão correr o risco de se encontrarem algumas vezes em inferioridade numérica. Vamos diminuir o espaço deste exercício de posse. O nosso feedback vai ter que insistentemente estimulá-los para que antecipem o que vão fazer e para que não cometam erros, privilegiar a segurança sempre. Não esquecer dos aspetos X e Y... 


Creio que fica bem patente a importância do impacto dos diferente constrangimentos na eficácia daquilo que se visa trabalhar. 


O treinador questiona-se e reflete em permanência, para tentar perceber se esta ou aquela modificação pode melhorar aquilo que tem em mente. Porém todo este processo pode ser limitado por certas barreiras mentais que foram criadas, assimiladas e mantidas ao longo do tempo e que, por tão entranhadas estarem, a mente não tem capacidade sequer de as colocar em causa. 


Uma destas barreiras que acredito que exista está relacionado com um pormenor da variável espaço: a figura geométrica do terreno de jogo. Aquilo que com frequência verificamos em distintos exercícios, em partilha com outros treinadores e/ou através de exercícios expostos na internet, é que no que toca às modificações desta variável (espaço), as mais comuns são: a inserção de espaços circuláveis e interditos (p.ex. PL só pode pressionar a partir de determinada linha), a alteração da profundidade e da largura (para estimular ora mais jogo em profundidade, ora mais horizontal) e por vezes a alteração da figura geométrica que delimita o exercício (p.ex.: circulo nos meínhos, ou o quadrado que acaba por ser uma figura semelhante ao retângulo mas cuja a distância entre comprimento e largura são iguais). 


Todavia, quando falamos em espaços circuláveis e interditos e de profundidade e largura, temos como referência o campo de futebol, cuja figura geométrica é um retângulo.


Este foco direcionado à figura geométrica do terreno de jogo prende-se com uma ilação que fui tirando nos últimos tempos: a realização de exercícios de macro organização e/ou de estrutura (com grande analogia com o jogo), são alvos de algumas modificações mas raramente são modificados quanto à figura geométrica que delimita o espaço do exercício. 


Pode parecer um preciosismo. “Porquê haveria eu de fazer algo tão bizarro?”. “Se eu quero ter um exercício que represente fielmente aquilo que o jogo é, não estaria eu a deturpar em grande parte a sua finalidade, fosse ela qual fosse?” 


Estas são perguntas naturais que podem estar a assolar o leitor neste momento. Mas em vez de tentar justificar e dar o meu parecer, vou partilhar algo fabuloso que li e me fez refletir.


O caso Tuchel – Rutura com mentalidades quadradas (ou retangulares)

Thomas Tuchel, atual treinador do Borussia de Dortmund, esteve aos comandos do Mainz entre 2009 e 1014. As duas últimas épocas desta passagem deixaram um marco interessante e simultaneamente intrigante, segundo o blog “Saturdays on the Couch”: nas épocas 2012/2013 e 2013/2014, o Mainz foi das equipas que menos permitiu que as equipas adversárias lhes atacassem por dentro (1o e 3o, respetivamente). Em termos ofensivos, algo mais curioso ainda se verifica: foi das que mais atacou pelo centro (1o e 2o). De assinalar que o Mainz ficou em 13º lugar na época 2012/2013 e em 7º na 2013/2014. 


Vê-se aqui algo de muito relevante para ser analisado, por parte de uma equipa de meio da tabela do campeonato alemão (e que não passou despercebida, não fosse agora Tuchel um treinador de uma das melhores equipas da Alemanha e do Mundo). 


Poderá agora o leitor não entender a relação entre a escolha da figura geométrica delimitadora do exercício de futebol e do Mainz de Tuchel, certo? 


Pois cá vai, um pormenor delicioso (retirado do site www.dw.com): 


“Tuchel's focus in practice is on "rhomb-training" with the pitch dimensions being cut to resemble a diamond, ruling out long passes down the touchlines. Mainz had tob get accustomed to training in different shapes on pitch sizes varying from rhomb to circle, or 18m wide x 75m length and 30m length x 70m wide.”. 


Exatamente. Tuchel utilizou diferentes figuras geométricas delimitadores do espaço do exercício, entre elas, o losango. Mas o que faz o losango afinal?



Faz precisamente o corte dos corredores laterais dos últimos terços do campo e com isso, algo que como vimos anteriormente, pode ter estado na origem na demolidora capacidade de anulação de jogo interior adversário e em simultâneo, impulsionador da criação de situações de finalização também pelo corredor central. 


Vejamos um parágrafo interessante por parte do treinador alemão (traduzido de http://www.ecosdelbalon.com/2015/07/thomas-tuchel-nuevo- entrenadorborussia-dortmund-filosofia-estilo-experiencia/): 


“Isto modificou o meu papel por completo. Não quero ser aquele que em cada pelada faça soar o apito e grite: 


- Não, quantas vezes já te disse que deves jogar em diagonal? 


Isso não é o que quero ser. Não leva a nada, corto o campo e os jogadores serão obrigados a fazê-lo de forma diferente. Posso observá-lo, ver como pode melhorar e ajudá-lo, sou um apoio, enquanto da outra forma seria um crítico e o que diz que nunca faz as coisas bem”. 


A minha intenção não é com isto dizer: utilizem o losango. Não é isso. 


É algo bem mais que isso. 


É passar a seguinte mensagem: apesar de incomum, devemos passar a refletir acerca de todas as variantes acerca dos diferentes constrangimentos aos exercícios de treino. 


Em suma, perguntemo-nos: quais seriam as vantagens de limitar o campo de forma triangular? E Hexagonal? Em que circunstâncias? Se a aplicação do losango e o círculo foram utilizadas com sucesso no Mainz de Tuchel (como vimos na citação anterior) também estas hipóteses poderão trazer algo de positivo ao jogo posicional de uma equipa de futebol. 


Sabemos exatamente em que medida? Talvez não, talvez apenas desconfiamos. Então apliquemos, tentemos levar estes cenários para a prática e retirar deles ilações (quando um médico modifica a dose do medicamento, tem que depois tentar perceber o efeito que o mesmo causou para perceber se cumpriu o efeito na perfeição ou se reajustes ainda são necessários). 


Boas reflexões e bons treinos.