Teoria do Futebol

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Defesa à Zona: Reflexões acerca do seu treino

O presente artigo visa partilhar, como o título do mesmo indica, algumas perspetivas acerca de um aspeto particular sobre o treino em futebol, especificamente, no método defensivo Defesa à Zona.


Não sendo minha intenção dissecar este conceito, irei apenas dar de forma breve e sintetizada o meu entendimento acerca desta forma de defender.



Defesa à Zona – O que é?


Forma de defender que tem como principais objetivos proteger os espaços vitais e ter superioridade numérica na zona da bola evitando assim os denominados jogos de pares (tu marcas esse, eu marco este). Esta superioridade numérica irá dificultar a progressão do adversário dado que, caso o homem em posse consiga ultrapassar o homem em contenção, serão garantidas sucessivas coberturas dada a proximidade entre jogadores na zona da bola contribuindo assim para o equilíbrio da equipa.


Uma boa “Zona” deverá contemplar:


I. Portador constantemente pressionado;


Pressionar o homem em posse, obriga-o a tomar uma decisão mais rapidamente e em simultâneo diminui-lhe as chances de sucesso.


Na imagem apresentada compreende-se a necessidade de condicionar a ação do portador da bola. O sucesso da ação depende em grande parte da execução técnica do jogador (colocação dos segmentos corporais no espaço) que é facilmente treinável. Torna-se importante então que cada treinador saiba guiar o atleta em questões como: distância ótima ao portador, colocação dos apoios no espaço, de que forma orientar a condução adversária para zonas menos vitais, etc.


II. Encurtamento do bloco, ou seja, das distâncias horizontais e verticais;


Já foi mencionado que é a concentração, a aglomeração de jogadores que permite criar as superioridades numéricas necessárias para deitar por terra a eficácia ofensiva da equipa adversária. Esta concentração/ encurtamento de linhas pode ser interpretado horizontalmente (distâncias entre elementos de uma mesma linha) ou verticalmente (distanciamento de linha para linha, ou, entrelinhas). Ver imagens seguintes.


Distâncias horizontais

Distâncias verticais

III. Rápidas basculações, quer horizontais, quer verticais.


Dada a dinâmica natural do jogo de futebol, o bloco defensivo terá que se mover. O termo “basculações” remete para o deslocamento coletivo e coordenado do bloco defensivo de forma a se equilibrar face às diferentes posições que a bola vai ocupando enquanto está na posse da equipa adversária. Enquanto as basculações horizontais estão comummente relacionadas com o corredor onde a bola se encontra, as basculações verticais (se o bloco avança ou recua no terreno) depende de outros fatores (habitualmente denominados de indicadores de pressão) tais como: direção do passe da equipa adversária, se portador se encontra de costas ou não para a nossa baliza, se foi efetuada uma receção deficiente, se a bola está a saltar (o que dificultará também a receção), etc…


De uma forma breve foi explicada a forma de como o bloco defensivo se organiza. Passemos agora ao verdadeiro propósito do artigo, relacionado com o treino desta forma de defender.


Defesa à Zona – O treino


Cabe ao treinador criar, aplicar e avaliar os exercícios que utiliza e cada um tem os exercícios com que mais identifica. Será interessante então que o leitor caso seja treinador (ou mero curioso interessado pelas questões do treino), ao ler os tópicos que se seguem, não só procure compreender a explicação que acompanha cada um deles, mas também que confronte os mesmos com os exercícios que atualmente põe em prática ou de que gosta. (p.ex.: eu concordo/discordo com isto porém costumo fazer desta forma. O que é que está bem/mal aqui?). O confronto é bastante positivo para a aprendizagem e evolução. Aqui vamos.


1. Evitar exercícios que quebrem a continuidade do jogo: “Quando a equipa que defende ganha a bola, devolve-a e à equipa adversária e reinicia o exercício!”. Sou assertivamente contra este tipo de exercícios. Este tipo de exercícios mata a transição defesa-ataque da equipa. Ganhamos a bola e ficamos estáticos. Ganhamos a bola e paramos o exercício. Defender não é, nem pode ser um objetivo em si mesmo, se não, o que acontecerá direta ou indiretamente é que os próprios jogadores da equipa que defende irão perder intensidade defensiva.


Ainda assim reconheço que a utilização deste tipo de exercícios pode ser vantajosa na introdução de novos conteúdos tático-técnicos que poderão ser complexos. Se ensinamos algo novo e complexo querendo que os atletas estejam compenetrados a 100%, até podemos retirar a transição se e só se (no meu ponto de vista) qualquer exercício deste género contenha uma 2ª fase onde haja objetivo para a equipa que defende (passando a ser um exercício de jogo, incorporando assim as transições). Assim, garantimos que os conteúdos ensinados no início do exercício têm transfere para a situação de jogo.


2. Alvo dever-se-á encontrar sempre em corredor central: Um dos fundamentos da Zona (como foi já referido) é a proteção dos espaços vitais, ou seja, há espaços mais importantes que outros. É por isso que habitualmente, as equipas que defendem desta forma obrigam os adversários a circularem para os corredores laterais, uma vez que a linha lateral serve de “muro” e diminui o espaço disponível para progredir. Por outras palavras, o corredor central assume-se como mais importante quando comparado com os laterais. O treino da deste tipo de método defensivo deve então contemplar e fomentar uma enorme proteção do espaço interior. Porém, bastantes treinadores recorrem a exercícios onde os alvos são colocados apenas nos corredores laterais, ora vejamos as seguintes imagens.


Ambas têm algo em comum: alvos nos corredores laterais. Se utilizarmos um exercício onde uma equipa tenha 1 baliza em cada corredor lateral, vamos contrariar um pressuposto da Zona anteriormente mencionado: o encurtamento do bloco, nomeadamente não encurtando as distâncias horizontais. Uma reação natural dos jogadores de uma mesma linha será: os jogadores mais próximos de cada baliza vão-se aproximar dela e assim os jogadores vão-se afastar do corredor que já foi referido anteriormente como, o corredor mais importante. O exercício não replica então aquilo que queremos para o jogo. Mesmo que contenha conteúdos que queiramos ver treinados (reação à perda, agressividade sobre o portador, etc), estamos a deteriorar um outro princípio e então isto leva-me a crer que devemos repensar no exercício.
É certo que podemos pedir que estes não o façam mas não é algo lógico de se pedir. Ficar mais próximos da sua baliza é de fato a forma mais eficaz de defender este tipo de exercícios. O exercício deve-se adaptar àquilo que o jogador deve fazer em jogo e para isso, o exercício deve ter regras/condicionantes que não choquem com a natureza do jogo e com aquilo que pedimos aos jogadores para executar.

Atenção, não afirmo que não se devam utilizar balizas nos corredores laterais. Apenas saliento que estas não devem existir sem que haja uma baliza em corredor central.


Só faz sentido querermos aumentar a velocidade das basculações horizontais quando o corredor central é devidamente protegido através da aproximação de jogadores da mesma linha (porque afinal de contas, é lá que se encontra a baliza no jogo e portanto a sua proteção deve ser permanente). O mesmo é dizer, só faz sentido usarmos balizas em corredores laterais, quando exista uma baliza em corredor central.


Em caso de utilizarem 3 balizas (1 em corredor central e 1 em cada corredor lateral) algo que pode ainda reforçar a ideia de proteção do espaço interior e no sentido de orientar o adversário para terrenos exteriores é a condicionante de, em caso de golo em baliza central, dobra o número de pontos (em caso de golo 2 pontos em baliza central e 1 ponto em qualquer das balizas laterais).


3. Trabalho deve tender para a estrutura e jogos fundamentais (com alvos): O processo de ensino-aprendizagem é um fenómeno onde a complexidade deve ser aumentada de maneira progressiva (princípio da Progressividade, Castelo, ano). Isto quer dizer que, à medida que vamos treinando a nossa Zona, vamos incorporando cada vez mais detalhes, cada vez mais pormenores que, realizados em conjunto, tornam a nossa forma de defender mais rica.


Transmitidas as premissas basilares da Zona tais como de pressão constante ao portador e de compactação, deveremos tender para aspetos cada vez mais específicos. O trabalho em estrutura dá uma funcionalidade que outros exercícios não dão, dado que (a título de exemplo) diz ao defesa direito que distância este deve ter do central mais próximo. Não basta dizer perto, é necessário dizer quão perto. Analisemos a seguinte figura.

Observa-se aqui um tradicional jogo sem alvos onde o objetivo de quem tem a bola é de a manter o maior tempo possível e a equipa que defende é de ficar na posse da mesma. Como vemos na equipa que defende há uma preocupação na proteção interior, claramente conduzindo o portador a jogar por fora do bloco. Todavia, como vemos, as distâncias entre defensores é bastante curta, mais curta que aquela que consideramos “ótima” no jogo de futebol. Portanto, apesar de podermos utilizar este tipo de exercício para o trabalho da defesa Zona, este exercício não é muito complexo dado que não indica que distâncias deve cada jogador manter do colega que lhe está ao lado e à frente.


Trabalhar em estrutura, ou seja, no sistema de jogo que utilizarmos, cria referências visuais claras e permite também perceber de uma forma objetiva se há 1 ou 2 jogadores que estão a deixar bastante espaço livre entre 1 ou outro colega.


“Todos os caminhos vão dar a Roma”


Da mesma forma que há vários caminhos para chegar a uma zona, há diferentes formas de se treinar uma Zona. Partilhei alguns pormenores acerca do caminho, que para mim, é o ideal para lá chegar.

Desde que justificado, todo o caminho é válido.


Boa viagem.

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