Teoria do Futebol

Tudo sobre Futebol, os metodos, os conceitos, os princípios, 
os processos e toda a organização tatica do futebol!

Tomada de decisão, modelo de jogo e treino

Estudar o futebol é uma forma de compreender cada vez mais o ser humano. Se pararmos para refletir, a decisão está presente em tudo o que fazemos: a jogar poker, estamos fisicamente quietos, mas estamos constantemente a decidir; a fazer as tarefas domésticas, estamos constantemente a decidir; a fazer o nosso trabalho do dia-a-dia, estamos constantemente a decidir. Tudo o que fazemos é consequência das decisões que tomamos, mesmo que seja não fazer nada. 

Como treinadores, há duas coisas que devemos fazer a favor da equipa: criar um modelo de jogo completo, dinâmico e realista para o jogo que se pratica (e treiná-lo), e tornar os jogadores capazes de decidir por si próprios. Um jogador, enquanto ser humano, não pode ainda ser robotizado para fazer o que queremos que ele faça dentro do campo. Nem a realidade do jogo torna possível que jogadores "robotizados" tenham mais sucesso que jogadores inteligentes e criativos, porque se treinarmos uma situação no treino, e repetirmos várias vezes até que o comportamento treinado seja como uma linha de produção de uma fábrica (ou seja, sempre a fazer a mesma coisa). Porém, como podemos limitar os jogadores a um único comportamento se eles não vão enfrentar não uma, mas diferentes situações? Não podemos simplesmente inventar uma jogada fantabolástica de colocar a bola na direita para um cruzamento e esperar que o jogador cruze em todas as situações. Basta o jogador encontrar oposição e este fica sem saber o que fazer. 


Como podemos resolver diferentes situações com apenas uma solução? 


Numa linha de produção, a questão é simples de resolver. Entra o material, sai o produto final. Entra o vidro e sai um copo ou um prato, e a situação repete-se até ao infinito. Porém, num jogo de futebol, não entra vidro e saem pratos. Defrontam-se adversários, que querem tanto ganhar como nós queremos, que estão constantemente em oposição a nós para não sofrer golo ou a tentar aproximar a bola da nossa baliza para eles fazerem golo. A realidade do jogo é, assim, como uma incógnita de comportamentos de diferentes jogadores das duas equipas.

Podemos prever aproximadamente o que vai acontecer no jogo. Analisamos o adversário e procuramos os seus comportamentos mais comuns e os seus pontos fortes a abater ou pontos fracos a ser explorados. Porém, não podemos prever o que vai acontecer exatamente no jogo, porque não controlamos o que vai acontecer. Simplesmente porque o jogo não é uma linha de produção. 


Um facto: no poker, existem 1.3 milhões de combinações diferentes. Provavelmente, até hoje, nenhum jogador profissional já teve todas essas combinações em toda a vida. Como não se repete a mesma combinação duas vezes, um jogador de poker não pode simplesmente estar treinador para resolver cada situação separadamente. Ele estuda a situação em que se encontra, estuda a probabilidade dos adversários terem um jogo mais forte ou mais fraco, a probabilidade de sair uma determinada carta para completar uma sequência vencedora, estuda o dinheiro que tem e se vale a pena o risco de continuar a jogada, e por ai fora. Ele está sozinho na mesa perante os adversários, estuda como o jogo decorre e decide tomar uma decisão com um risco sempre associado. A lógica desse jogador é analisar e decidir segundo um conjunto de ideias em que acredita ou que sente serem as melhores soluções. Está, portante, a decidir em função daquilo que se passa, daquilo que ele viu e daquilo que ele sabe. 

Segue um conjunto de princípios - os seus princípios - para tomar decisões das quais ainda não sabe o resultado, mas que representam uma probabilidade maior de ter sucesso. 


Por semelhança, no campo de futebol, o jogador não viveu todas as situações para que possa simplesmente encaixar uma peça de um puzzle e resolver um problema. A situação da bola que surge na direita provavelmente não será a mesma situação que vai surgir daqui a 2 minutos. O adversário pode não ser o mesmo, as posições dos colegas e adversários não serão as mesmas, os comportamentos de quem tem bola, quem apoia e quem se opõe também não serão os mesmos. No geral, será uma bola na direita do terreno nas diferentes situações, mas em contextos diferentes. Não podemos simplesmente limitar a uma situação e uma resolução por ter a bola na direita.


A solução, então, será sempre oposta aos comportamentos "mecanizados". Como o jogador de poker analisa a mesa, os jogadores de futebol tem que analisar o campo. Como o jogador de poker procura uma solução, os jogadores de futebol tem que procurar soluções. E como o jogador de poker decide, os jogadores de futebol tem que decidir. E como o jogador de poker toma decisões em que busca o caminho que acredita ser mais provável para vencer, procurando diminuir o risco que está sempre associado, os jogadores de futebol devem decidir perante um conjunto de ideias gerais a todos eles. 



Foco no modelo de jogo e nas decisões 


É ai que entra o modelo de jogo e o treino. Se os jogadores precisam de tomar decisões que diminuem os riscos associados ao jogo de futebol devido a este ser em parte imprevisível, o modelo de jogo deve ditar regras aos jogadores da mesma equipa que os façam trabalhar mais organizados. Essa organização não se faz por linhas de marcação muito bem alinhadinhas nem comportamentos robotizados. Essa organização faz-se por ideias, onde cada jogador procura apoiar os colegas de equipa, tanto o que está ao lado como o que está mais longe. A solução para cada situação será um grupo de ideias comuns a todos os jogadores. Não basta dizer: se a bola cai na direita, então cruza. A solução é: se a bola cai na direita, vê se tem alguém para cruzares e fazer golo. Se não tem, aguenta até que chegue alguém para finalizar o cruzamento, vem para dentro procurar soluções ou passa a bola a outro colega de equipa para tentar criar de outra forma. Aos seus colegas de equipa, eles devem saber que alguém tem que ir para perto da baliza para finalizar, que alguém tem que se movimentar e ajudar a criar soluções mais dentro e que alguém tem que lá estar para receber a bola e procurar outras soluções. 


Uma bola na direita é, assim, uma situação mais dinâmica, com soluções diferentes conforme a dificuldade do contexto dessa situação. E as soluções dependem das ideias coletivas da equipa, em que cada comportamento é um suporte a tomar decisões. Seguindo esta lógica, o modelo de jogo deve portanto sustentar ideias, que ofereçam soluções a diferentes situações, para que um ou mais jogadores possam tomar uma decisão com o menor risco associado possível.


E é aí que entra o treino 


O treino não será, portanto, focado para treinar fintas e passes. A dificuldade dos exercícios faz com que os jogadores evoluam nesses aspetos. O treino deve servir, então, para criar comportamentos e pensamentos coletivos a todos os jogadores. Bola na direita, estudam o contexto e buscam soluções. Não dá para tomar uma decisão porque parece demasiado arriscada, tomamos outra decisão. 


Com o tempo, aumentamos a dificuldade do exercício, para habituar os jogadores a analisar, decidir e realizar mais depressa. Corrigimos sempre comportamentos contrários às ideias que se querem treinar, e buscam-se sempre novas ideias, observando os melhores, falando com os jogadores daquilo que eles sentem ou pensam ou simplesmente rabiscando várias ideias num papel, até que surja uma que pareça realmente boa e que valha a pena testar. O exercício deve assim repetir situações que se busquem soluções, e não comportamentos robotizados. Futebol não é uma linha de produção 

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