Teoria do Futebol

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O que fazer para criar mais situações de finalização? - Parte 2

Após ter escrito o último artigo, onde falei do que é necessário para criar mais situações de finalização (tais como não jogar à defesa ou focar o trabalho no coletivo), resolvi aprofundar a questão, tentar perceber o jogo por dentro e como podemos criar mais situações de finalização. Em qualquer contexto que vamos trabalhar, temos que explorar a natureza desse contexto e agir conforme a sua natureza.

Compreender o jogo é necessário para que o possamos jogar futebol. Compreender qual é o melhor caminho para a vitória, sabendo que o jogo tem a sua complexidade, permite traçar um caminho para alcançar o sucesso. Sabemos que qualquer jogador tem os seus pontos fortes e fracos. Podemos explorar os pontos fortes a favor do coletivo, da mesma forma que podemos usar o coletivo para esconder os pontos fracos de cada jogador. Explorar os pontos fortes e esconder os fracos é uma ótima definição para “tática”.


Não podemos dizer que um “4-3-3” é uma tática, nem o “4-4-2”. Isso são apenas números para designar a disposição dos jogadores pelo campo. A tática, são os processos de jogo, a estratégia, os comportamentos coletivos, que levam os pontos fortes dos jogadores a serem bem explorados e os pontos fracos a serem bem escondidos.


Por exemplo, se eu tenho um extremo que não sabe segurar a bola quando está sozinho contra dois adversários, e tem o costume de os tentar ultrapassar, eu sei que ele vai perder a bola muitas mais vezes do que terá sucesso. Então, eu posso fazer um médio ou lateral abrir uma linha de passe, para receber a bola em segurança e a equipa escolher outro caminho. Assim, não perco a bola desnecessariamente e mantenho o controlo do jogo. Isso é a tática do jogo. O “4-3-3” diz isso em algum lado?


Em outra situação, sabemos que o adversário vai contra-atacar com uns 4 jogadores pelo meio. O que podemos fazer para esse jogo? Sabemos que temos dois defesas centrais, mas e daí? Eles estão lá para jogar sozinhos? Eu posso deixar um lateral junto a eles, um trinco a fechar espaço na frente, e fazer os médios e atacantes pressionar para retardar a saída do adversário e dar mais tempo à defesa para se recompor. Isso dá para desenhar num “4-4-2”?

O que podemos fazer para criar mais situações de finalização?

O trabalho do treinador é organizar a equipa. Abel Xavier, não fique zangado comigo se eu discordar que um treinador treina a dor, mas o trabalho do treinador é mesmo criar condições no contexto coletivo para vencer mais vezes. Talvez possamos então juntar numa lista, algumas coisas que nos ajudam a ter mais hipóteses de criar mais situações de golo.

Atacar só por atacar, não chega

O alvo é e será sempre a baliza. Mas atacar sem saber o que se vai fazer é mais propício a perder a bola do que a ficar com ela. Muitos foram ensinados em que é preciso sempre dar mais e o esforço no jogo vêm do esforço físico. Podem até estar a chegar ao fim do jogo e não ter mais pernas, porque deixaram de controlar o ritmo do jogo e continuarão a atacar até não poder mais.


Um facto, é que, quando estamos na posse de bola, podemos escolher entre ficar com ela ou atacar. O jogo não obriga a atacar se não temos condições para isso, como um adversário fechado ou os nossos jogadores a precisarem de uns segundos para recuperar o fôlego. Se não dá para atacar, então, porque atacar e perder a bola? Se não conseguimos atacar, conseguimos defender?

Manter linhas de passe em aberto, sempre

O portador da bola tem, geralmente, quatro opções diferentes: segurar a bola, passar, ultrapassar adversários, ou se não conseguir fazer mais, perder a bola. Segurar a bola é uma opção para esperar pelos colegas de equipa e pelo momento certo para soltar a bola. Se o portador tem a bola no pé e não tem opções para seguir no terreno, então, segura a bola e espera pelos colegas de equipa. É uma solução melhor do que a perder. 


Quanto ao passe, este é feito com o objetivo de dar seguimento ao jogo ou manter a posse. Um passe para trás não é necessariamente um mau passe quando é a melhor opção a fazer. Se as condições de dar seguimento ao jogo são péssimas, como ter os colegas bem marcados ou que dificilmente recebem a bola, então, não há obrigação de passar a bola. Se o risco em perder a bola é demasiado grande num passe, então, a capacidade da equipa em criar uma situação de finalização a partir desse passe é muito menor. 

Ultrapassar adversários tem outra complexidade diferente. Quais são as razões que devem levar o portador da bola a ultrapassar um adversário? O portador da bola deve ultrapassar um adversário quando: está perto da baliza adversária; tem capacidades técnicas para o fazer; tem a quem passar a bola para dentro da área; ou possibilidade de remate. Tudo o resto, deve ser feito através do passe, tabelas ou combinações. Qualquer jogador tem que saber passar e receber a bola, porque é a melhor ação técnico-tática para aproximar a bola da baliza. 


Em último, perder a bola é uma ação desnecessária, obviamente. Se o portador da bola tenta passar para um jogador marcado pelo adversário, claramente decidiu perder a bola. Se o risco em criar algo de sucesso é praticamente nulo, então, porquê perder a bola? Não é melhor a manter? Não é melhor gerir o ritmo do jogo, fazer circular a bola e esperar pelo momento em que há condições para atacar, do que perder a bola?

Manter uma equipa de 11 jogadores, e não três ou quatro grupos dentro do campo

Vamos pensar assim: eu sou defesa centro e à minha frente, tenho um médio. Sabendo que o médio vai arriscar mais do que eu, pode perder a bola mais vezes, logo, eu tenho que estar preparado. E só estarei preparado se souber o que ele vai fazer, para prever o jogo. E depois: eu sou o médio. Eu sei que tenho um defesa atrás de mim, que vai fechar o espaço para eu tentar atacar. Assim, se eu perder a bola, eu sei que ele vai lá estar. Aqui, os dois jogadores têm que se conhecer mutuamente. Cada um tem que saber o que o outro vai fazer.


Mas dentro do campo, as funções dos jogadores não se resumem a dois jogadores. Não são eles que tem que se conhecer, são todos. O médio sabe que tem um defesa atrás para o proteger se perder a bola, mas sabe que tem uma linha de passe segura. O defesa, tem que saber que é uma linha de passe, e tem que manter uma certa distância para que essa linha de passe seja segura. Depois, um lateral por exemplo, sabe que se o médio passar para trás ou perder a bola, tem que recuar. Tem que dar apoio ao defesa se é agora o defesa que tem o jogo na sua frente. 


Esse mesmo médio, também tem que saber qual é o comportamento dos extremos e atacantes por exemplo. Como é que o extremo vai colocar a bola na área? O que o atacante faz se tiver a bola na sua posse? Se for esse médio o responsável por dar uma linha de passe segura aos dois jogadores, deve estar nas suas costas, em condições de receber a bola. Esses dois jogadores sabem que, se não tiverem como criar uma situação de finalização, tem um colega a quem passar a bola, para não a perder e reduzir as hipóteses de perder a bola de poucas para nenhuma.


Estes comportamentos coletivos, onde cada um sabe o que os outros vão fazer, e os outros sabem o que cada um faz, ajudam a equipa a manter a posse de bola. Desta forma, não temos que jogar ao calha e depois andar a correr atrás da bola. O jogo deve ser pensado, e correr deve ser um recurso, sempre, seja para atacar, seja para defender.

Os jogadores têm que ser rápidos, a pensar……….

A velocidade no futebol não se vê por aquele jogador que corre mais, mas por aquele que pensa mais rápido. E, para ser rápido, não vale a pena tomar uma decisão rapidamente sem saber o que está a decidir, sem conhecer o jogo. 


Conhecer o jogo é fundamental. Eu serei um excelente administrador de uma empresa, se souber administrar. Serei um excelente treinador, se souber treinar. E serei um excelente jogador, se conhecer o jogo.


O treinador pode pedir que eles sejam rápidos, que passem a bola rapidamente, etc. Mas, se não há condições para passar ou progredir, os jogadores têm que perceber RÁPIDO que se tentarem, vão perder a bola desnecessariamente. Então é que eles vão ter que ser rápidos a correr atrás da bola. 

Não importa ser o mais rápido a correr ou a fintar, quando se faz uma finta sem sentido ou se corre numa direção qualquer. Importa ser rápido a pensar o jogo. 

E sem esquecer, o jogo está sempre a evoluir

Os treinadores também precisam estar sempre a evoluir, porque são cada vez mais as pessoas ligadas ao futebol, logo, são cada vez mais as ideias que vão surgindo. É preciso estar dentro de tudo o que aparece novo no futebol. Se há algum tempo, correr mais e durante mais tempo parecia ser o bolo todo, hoje são só migalhas. Mas para muitos, que não se dedicaram a aprender, correr ainda é tudo

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