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Entrevista a Jurgen Klopp

Posted by Valter Correia on May 30, 2013 at 3:00 PM

      Recentemente, assistimos a uma excelente evolução no futebol alemão, especialmente à evolução do Dortmund. Jurgen Klopp, treinador do Dortmund, acaba de entrar na minha lista de treinadores fenomenais, que, após assistir a final da Liga dos Campeões, adorei ver o seu modelo de jogo. Pena não ter conseguido (ainda) uma cópia da final da Liga dos Campeões, para fazer uma análise como a final da liga Europa

 

       Hoje, encontrei uma excelente entrevista neste site parceiro dada pelo treinador do clube alemão. Da minha parte, atribuo os parabéns a toda a equipa responsável pela publicação do conteúdo, que foi traduzido. Excelente entrevista, que valorizei imenso, e os leitores vão valorizar também!

 

 


     Entrevista a Jürgen Klopp, treinador do Borrusia Dortmund


     Entrevistador : Die Zeit (DZ), Jornal alemão

     Entrevistado: Jurgen Klopp


 

       ZM: Sr. Klopp, queremos falar consigo sobre Futebol.

       JK: Ora aí está algo de novo! Já estou quase habituado a que os media se interessem apenas por informação cor-de-rosa: quanto é que custou um jogador ou quem é que foi visto com quem na discoteca.

 

       ZM: Em poucos dias começará a nova época da Bundesliga. A última época foi marcada pelo epíteto de futebol de sistema e também pela frase de Jürgen Klinsmann “cada jogador, a cada dia, pode melhorar um pouco”. Neste momento, Klinsmann já foi substituído, mas fica a pergunta: o que significa concretamente “melhorar um jogador de futebol”?

       JK: Em público, existe sempre uma tendência para se falar, do ponto de vista teórico, no sistema, no modelo de jogo e no papel do treinador e dos jogadores. Mas raramente é questionado para que serve determinado exercício prático, um treino ou o que retiras disso para desenvolver ou formar um jogador.

 

       ZM: E…?

       JK: A minha regra pedagógica basilar consiste, numa primeira fase, em que é bem mais importante enaltecer as qualidades do jogador do que apontar-lhe os pontos fracos e criticar-lhe as falhas. Não podemos dizer ao jogador: “Isto tu não sabes fazer” ou “Isso não vais conseguir fazer”. Quando eu, enquanto treinador, acredito num jogador e que ele poderá evoluir, ao mostrar-lhe como poderá desenvolver as suas capacidades ganho a sua confiança. Se ele sente essa confiança, vai evoluir e crescer como jogador. E, no momento da verdade, vai acreditar em mim e, seguidamente, em si mesmo.

 

       ZM: Mas uma auto-confiança elevada não substitui o talento. O que acontece aos pontos fracos dos jogadores?

       JK: A autoconfiança, para mim, é determinante. Depois, sim, trabalhamos os pontos fracos. Várias vezes, muitas vezes. São exercitados, repetidamente. Tenho um excelente exemplo no plantel: o nosso central Felipe Santana. Ele é verdadeiramente um atleta excepcional. Tem grande capacidade física, o que lhe permite ser bem-sucedido nos lances homem-a-homem. Teve porém que dissimular as suas limitações técnicas. Para corrigir as deficiências, só tivemos que lhe fazer duas perguntas: Qual é a função de um defesa central? e Por que é que ele é um jogador crucial na equipa? A resposta é imediata: o defesa central é, quase sempre, o nosso último recurso. Quando perdes a bola ou se não a souberes parar convenientemente, é praticamente certo que o adversário vai ter uma oportunidade para marcar um golo. Nessa posição, é crucial ter jogadores com um nível técnico considerável. Isso analisa-se com base em três parâmetros: recepção/controlo da bola, condução da bola e passe. E foi isso que fizemos com o Felipe Santana. Treinar controlo, condução e passe. Várias vezes, muitas vezes…

 

       ZM: Os colegas não gozam com o jogador?

       JK: Isso é um disparate. Não, ninguém goza ou se ri neste tipo de treino, porque pode acontecer a qualquer um. E acontece! Treino é repetição. Isso é válido para atletas e para músicos. Vi, recentemente, um filme sobre um baterista que repetia as sequências individuais 1600 vezes, até que estivessem verdadeiramente interiorizadas. Aí, ele já não pensa mais. Apenas tocava. Simples: badambadam, badambadam, badambadam. Repetição, repetição. As coisas também funcionam assim no futebol. Não precisas treinar 1600 vezes, mas, depois do treino, proponho ao Felipe Santana 60-70 bolas desde posições diferentes. E ele vai ter que conseguir reagir sempre: receber, conduzir e passar.

 

       ZM: Isso é suficiente?

       JK: Claro que não é suficiente para corrigir as deficiências do jogador, mas consegues algo muito importante: o jogador envolve-se e passa a saber lidar melhor com os seus pontos fracos. O jogador tem que reconhecer estes pontos fracos. Saber viver com eles.

 

       ZM: Agora ele consegue parar a bola…

JK: A técnica é, do meu ponto de vista, o primeiro pré-requisito para um futebolista. A arte, se quiser. Depois, segue-se o segundo passo: a inteligência de jogo. E aí há uma necessidade de melhorar individualmente, como também do ponto de vista colectivo. Seja com toda a equipa, seja com parte da equipa. Depois, também possuímos recursos sofisticados para realizar uma análise vídeo top do ponto de vista individual e colectivo, em que utilizamos múltiplas câmaras que estão instaladas no estádio apenas com esse propósito.

 

       ZM: Antes de fazer a análise em equipa, tem que ver o vídeo de jogo. Quanto tempo dura essa tarefa?

       JK: Para que um vídeo de um jogo de 90 minutos fique devidamente visto, não o posso ver corrido. Paro, volto atrás, avanço. Paro, volto atrás, avanço. Demoro 5 horas a analisar e a esmiuçar um jogo de forma a apreender tudo.

 

       ZM: Quando é que faz isso?

       JK: Quando jogamos ao sábado, faço a análise do nosso jogo ao domingo. Às terças-feiras, vemos as imagens da equipa relativas ao último jogo. Reúno os jogadores e observamos duas sequências: o que fizemos bem e o que fizemos mal. Da mesma forma, faço reuniões por sector. Por exemplo, reúno-me inúmeras vezes com os quatros defesas para lhes mostrar como reagiram às situações do jogo. É fundamental definirmos os tempos certos, para que a linha de quatro funcione na perfeição: não se podem mover demasiado rápido, nem de forma demasiado lenta. No que diz respeito a análises individuais, temos um registo de gravações de todos os jogadores. De todas as suas acções. Uma a uma.

 

       ZM: Faz uma crítica individual perante toda a equipa?

       JK: Quando tecemos críticas, gostamos de as fazer em frente a todo o plantel. A nossa crítica é feita ao comportamento posicional, nunca é uma crítica à pessoa. O trabalho de desenvolvimento funciona por meio de feedback e de correcções.

 

       ZM: Qual é a frequência dos treinos?

       JK: Faço dois treinos à terça-feira. À quarta-feira, fazemos cinética e uma unidade de treino. À quinta um treino e à sexta outro. Ao sábado é o jogo.

 

       ZM: Cinética?

       JK: A cinética é fundamental na minha metodologia de treino. O professor Horst Lutz apresentou-nos um método fabuloso, chamado Life Kinetik, que obteve excelentes resultados com esquiadores alemães como Felix Neureuther. Isto envolve a concentração e a coordenação, como também a educação ocular (treino do olho). Aparentemente, isto parece ter muito pouco a ver com futebol. Por exemplo, nós praticamos formas bastante complexas de malabarismo (pegar em dois cubos de açúcar, atirá-los ao ar e agarrá-los com as mãos cruzadas), o que permite aprender a diferenciar percepção e movimentação, cérebro e aparelho motor. Tudo isto se treina.

 

       ZM: Isso faz sentido para os jogadores?

       JK: (risos) Isso é a parte prática da autoridade: se eu quero que seja feito, é feito. Isso permite que os jogadores se apercebam que isso os ajuda a melhorar o seu posicionamento, a ter maior velocidade de reacção, a reagir mais rapidamente, a ter uma perspectiva mais acurada e uma melhor visão geral do jogo. Tudo isto reunido acaba por fortalecer a minha autoridade. A inteligência dos jogadores de futebol é francamente subvalorizada. As pessoas julgam-nos pelas declarações que fazem no final dos jogos, muitas vezes por responderem a perguntas muito pouco inteligentes. Experimentem pôr um microfone à frente do nariz de um cirurgião imediatamente após uma operação de duas horas ao coração. Ele é quem nos salva a vida. Mas dele, nessa circunstância, também não ouviriam as melhores respostas.




 

       ZM: No que diz respeito a jogadores inteligentes e adultos, há uma predisposição para questionarem decisões ou para pedirem alguns privilégios?

       JK: O exemplo típico é o da reserva e da ocupação de quartos e camas em estágios. Se não houvesse um critério, todos escolheriam quartos individuais. Eu faço questão que não haja quartos individuais. Reservo sempre quartos com duas camas e faço questão que um jogador não escolha o seu parceiro. Por isso, sou eu quem define os pares que ocupam os quartos… Se não o fizesse, pode imaginar o que daí resultaria.

 

       ZM: Na última temporada havia excepções?

       JK: Havia duas. Os dois jogadores que ressonavam. Assim não dá! Num estágio é preciso dormir e descansar bem. Por isso, receberam ambos um quarto individual. Assim, podiam ressonar à vontade. Para definir a escolha dos quartos, faço um sorteio no início de cada época, o que se tornou num verdadeiro ritual. Encenamos um sorteio das competições europeias: temos o “que joga em casa”, que é o primeiro a ser sorteado e que se senta à frente, de olhos tapados, à espera de saber quem lhe calha na rifa. Ou seja, “quem joga fora”. Depois, há gritos e cenas de júbilo. Isso acabou por tornar-se num evento extremamente divertido.

 

       ZM: Em criança ou durante a sua juventude reconhecia autoridade em alguém?

       JK: O meu pai era um desportista de corpo e alma. Muito completo. Um treinador de corpo e alma. Muito completo. Foi quem me mostrou e ensinou tudo: futebol, ténis e esqui. Ele era completamente irresponsável: quando esquiávamos, só via o seu anoraque vermelho. Das pistas de esqui não via nada.

 

       ZM: Como assim?

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Categories: Treinadores e Entrevistas

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1 Comment

Reply Thomaswam
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