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Periodizacao tatica: metodologia como ferramenta ou como religiao?

Posted by Valter Correia on February 14, 2014 at 6:50 AM

A Periodização Tática trata-se de uma metodologia de treino e de jogo preconizada por Vítor Frade, que pretende construir uma forma contínua de ensino de todos os princípios referentes a um dado Modelo de Jogo, criado pelo treinador (Campos, 2008; Silva, 2008 ). Esta metodologia está associada ao princípio biológico da especificidade, na medida em que, segundo esta, a dimensão tática ocupa um lugar central. “A preocupação é desde o primeiro dia colocar a equipa a jogar como o treinador quer, ou seja, em função de um Modelo de Jogo” (Carvalhal, 2001, p. 51).

O número de adeptos desta metodologia tem aumentado a passos largos, o Paradigma Mourinho tem sido um catalisador deste processo... Os treinadores estão cada vez mais sedentos por descobrir afinal de contas, de que é feita esta poção.

       Desejo, desde já, que o leitor não retire conclusões precipitadas e julgue que este se trata de um artigo que irá criticar esta metodologia, pelo contrário. Este artigo irá apenas apontar o dedo a falsas ou erróneas interpretações da mesma ou ainda, ao fundamentalismo. O fundamentalismo pode ser definido como a “atitude de intransigência ou rigidez na obediência a determinados princípios ou regras”. Mas qual será a origem desta intransigência?


       José Mourinho assume-se como um tremendo caso de sucesso e de estudo. Assume-se na atualidade como um dos maiores paradigmas, um exemplo para a maioria dos treinadores, de tal forma que, muitos deles idealizam ser praticamente uma réplica deste treinador de excelência. Mourinho foi por diversas vezes associado a esta metodologia de treino, também pelo fato de ser acompanhado pelo professor Rui Faria, um dos pioneiros na divulgação da mesma. Isto poderá levar ao seguinte pensamento por parte de certos treinadores que desejam progredir na sua carreira:


       Para ser um treinador de excelência como X, tenho que ser como X e fazer o mesmo que X.


       Analisando a frase anterior, compreendemos que existe a possibilidade de cair num erro crasso de se seguir uma dada metodologia, não pelo seu conteúdo, mas pela simples via da imitação e como se sabe, a cópia é sempre mais fraca que a original.

       Passemos a exemplos concretos de algumas coisas que tenho concluído entre conversas e debates com alguns estudantes de desporto e treinadores de futebol …


       Cada vez mais se criticam treinos que não tenham bola


       “Um treino que não tenha bola, não é específico… O jogo de futebol é jogado com bola logo não faz sentido treinarmos em condições diferentes das do jogo!”

     Um plantel de uma equipa de futebol é constituído por um conjunto homens. Por sua vez o Homem trata-se de um ser biopsicossocial. Desta forma para que o treinador consiga retirar o que há de melhor em cada um destes homens, deverá desenvolver o sujeito em todas as suas dimensões: Tática, Técnica, Física, Psicológica e Social. Assim sendo, cabe a cada treinador ponderar qual o melhor exercício para o objetivo que pretende ver atingido. Imaginemos que o treinador apesar de realizar várias tarefas específicas com grande intensidade física verifica, após uma avaliação, que os atletas estão aquém em termos fisiológicos, daquilo que pretende. Retirando a bola, é possível criar um exercício mais analítico mas mais seletivo para aquilo que se pretende efetivamente trabalhar. Recorrendo a outro exemplo, o treinador verifica que os atletas atravessam uma fase menos boa em termos psicológicos manifestando algum stress pré-competitivo e em termos sociais revelam uma coesão grupal fraca. O treinador poderá organizar um convívio fora do treino (existe algo menos específico que não estar dentro das 4 linhas?) para trabalhar esses fatores psicológico-sociais. Como se pode verificar, nem sempre o treino em especificidade pode ser o melhor para “aquele momento” e assim sendo, o treinador não deverá ficar preso a chavões criados através da sua interpretação de uma metodologia, mas sim, fazer o que realmente considera indispensável naquele instante.



 

       Cada vez mais se criticam treinos onde se adicionem cargas externas para o treino de força


       “O tempo da periodização convencional já lá vai… Os jogadores atualmente treinam força apenas em contexto de jogo, diminuindo as dimensões do campo.”

       Existe uma tendência em se trabalhar a força apenas com o próprio peso do corpo. Estudos revelam que os jogadores do futebol atual são cada vez mais dotados em termos físicos, seja em termos de resistência, velocidade e/ou força. No que toca ao treino de força, também é sabido que até um dado nível, não se torna possível aumentar os índices de força apenas com o peso do corpo. O mesmo se passa com a velocidade em que depende em grande parte da força, senão vejamos a seguinte expressão matemática: Força = Massa X Aceleração. Ao analisarmos a mesma e ao transferirmos o seu significado para o contexto desportivo, verificamos que, ao aumentarmos os índices de força, desconsiderando as variações de massa do corpo (que à partida também não serão bastante diferentes de um momento X para Y), aumentamos igualmente a aceleração. Por outras palavras, aumentando a força teremos também atletas mais rápidos. Se isto for ignorado, são ignorados também princípios básicos do treino e por muito que se tente treinar a força condicionando por exemplo o número e o espaço num exercício, este nunca irá ser tão rico no sentido de aumentar os índices de força e aceleração até dado momento.




 

       Cada vez mais se criticam os morfociclos padrão que não tenham a sequência em termos de carga igual às propostas encontradas pelos defensores da periodização tática (1. Recuperação/ 2. Fração Intermédia do “Jogar”/ 3. Grande Fração do “Jogar”/ 4. Pequena Fração do “Jogar”/ 5. Predisposição para o jogo


       “A Periodização Tática é bastante explícita quanto à distribuição de cargas semanais. Alterar esta distribuição nem sequer faz sentido!”

       A periodização e distribuição de cargas revelam-se como aspetos que podem ditar o sucesso ou insucesso do processo de treino e consecutivamente, do rendimento desportivo. Na realização destes torna-se indispensável analisar o contexto no sentido de realizar uma planificação tendo em conta a matéria-prima disponível (recursos temporais, espaciais e humanos). Ou seja, não podemos pensar uma dada distribuição de cargas semanais é a melhor em todos os contextos senão vejamos:

  • Imagine-se que um treinador tem 5 treinos por semana e pondera implementar o morfociclo apresentado no ponto III, porém possui uma limitação em termos espaciais em que na quarta-feira possui apenas ½ campo para treinar. Será que é aceitável que se trabalhe organização coletiva a meio campo? Será que é plausível trabalhar, por exemplo, a exploração dos espaços intersectoriais da equipa adversária, quando temos um total de 22 jogadores aglomerados num meio campo? O mesmo pode acontecer com uma limitação em termos humanos onde, por exemplo, também na quarta-feira haja um reduzido número de jogadores (por impossibilidades laborais), será que é também concebível que se trabalhe a organização coletiva sem a presença de muitos jogadores e quiçá de jogadores importantes para o plantel?


       Os exemplos anteriores demonstram a extrema necessidade de analisar o contexto e após esta análise, determinar o melhor morfociclo padrão possível.

       O problema não está na metodologia mas nas possíveis interpretações e fundamentalismos criados em torno da mesma. Posto isto, será que ao observar um determinado exercício de treino poderemos dizer se um treinador é bom ou mau? Vejamos o seguinte exercício:

 

     

  


       Trata-se de um exercício recente realizado por Tata Martino no F. C. Barcelona. Um treinador de top, num dos melhores clubes do mundo. Será que este exercício desvaloriza o treinador? Será que ele quer trabalhar o modelo de jogo com uma bola de râguebi, jogando com as mãos ou terá algo diferente em mente?


       E o próprio José Mourinho, será que se assistíssemos uma sessão de treino onde este colocasse todos os jogadores ao longo de uma coluna e os agredisse com um cabo de vassoura, consideraríamos um bom ou mau exercício? Passaria este a ser um mau treinador?


       Em jeito de conclusão irei fazer uma súmula do duas mensagens principais que pretendi transmitir com o presente artigo:

  1. Não critiquem negativamente um treinador que coloca em prática aquilo em que acredita, sem perguntarem à priori qual o seu objetivo. É descontextualizado? É analítico? Não é adequado para este dia? Tudo tem uma explicação, caso o treinador em questão, quando questionado não reconhece “o porquê” que o fez, aí sim pode ser alvo de crítica (este deve saber a todo o momento o porquê da realização dos exercícios que ministra). Caso justifique devidamente, ainda que não se concorde, é válido. Tudo é válido quando é devidamente justificado!
  2. Não sejamos fundamentalistas de metodologia nenhuma, como se de uma religião se tratasse. Sejamos sim capazes de refletir acerca das vantagens de A e de B, ao invés de usar cegamente A ou B. Não existe uma receita perfeita, toda a gente sabe disso. É necessário então agir coerentemente e retirar o melhor que existe em cada receita imperfeita (entenda-se receita imperfeita como metodologia) no sentido de sermos cada vez melhores treinadores.

 

 

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Categories: Treino

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