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Entrevista a Filipe Martins, o primeiro treinador principal com que trabalhei

Posted by Valter Correia on September 29, 2013 at 12:15 PM

       Todos nós temos uma forma de trabalhar no futebol, assim como uma forma de começar. Passado algum tempo após a excelente experiência que eu tive com toda esta equipa, surgiu a oportunidade de publicar a entrevista a Filipe Martins (à direita), com quem tive o prazer de trabalhar e aprender. Foi assim que eu comecei no futebol, com excelentes rapazes e colegas de equipa, e não há nada melhor para começar do que começar bem. Após a entrevista a Rui Carvalhal, que fez parte desta equipa técnica à qual pertenci, vamos à entrevista a Filipe Martins!




        Se me permite, todos nós gostaríamos de conhecer um pouco da sua carreira pessoal. Existem duas formas essenciais de construir uma carreira: através de títulos e medalhas pessoais, sendo estas as metas que nós alcançamos, grandes ou pequenas. Quais foram as principais medalhas pessoais do mister Filipe?


        Antes de mais, gostaria de agradecer-te pelo interesse que demonstraste na realização desta entrevista. Em segundo lugar, dizer-te que estás de parabéns pela forma como te entregas à dinamização do site “teoria do futebol” e pelas reflexões que fazes em torno desse fenómeno. Conhecendo a forma como o teu interesse pelo futebol foi despoletado, considero essa dinamização ainda mais meritosa. Parabéns.


        Relativamente à questão colocada, a minha “carreira” no mundo do Futebol iniciou-se, enquanto jogador, em 1998 nos seniores da A. D. C. Correlhã, clube que disputava a divisão de honra da AF Viana do Castelo. Joguei durante 4 épocas. Entretanto, em 2002, enquanto estudante da FCDEF-UP, no 4º ano do curso de Educação Física e Desporto, decidi dedicar-me inteiramente ao estudo do jogo e à sua operacionalização em treino. Nesse ano, todos os estudantes do curso tinham que fazer um Centro de Treino e eu optei por fazê-lo nesse mesmo clube. Todos os treinos tinham de ser planeados e apresentados ao docente dessa cadeira, o professor Vítor Frade. No final de cada microciclo, era necessária uma reflexão aprofundada acerca do trabalho realizado e da sua relação com o jogo. Esse trabalho ajudou-me muito a crescer enquanto treinador.


        Na época seguinte, continuei como treinador adjunto nesse clube, sendo que nesse ano conclui também a minha licenciatura com a apresentação da monografia que teve o seguinte título: “ A Periodização Tática, segundo Vítor Frade: mais do que um conceito, uma forma de estar e refletir o Futebol”.


        Em 2003/2004, fui dar aulas para Sobral de Monte Agraço, onde surgiu oportunidade para coadjuvar a equipa técnica do clube local que disputava a 1ª divisão distrital de Lisboa. Assim foi, pois era impossível ver-me afastado do Futebol.


        A partir dessa época, decidi iniciar a carreira de treinador principal, orientando diversas equipas nos escalões de formação. Iniciei-me com os infantis do extinto Atlético de Valdevez, passei pelos infantis do Forjães SC e prossegui no clube da minha terra (ADC Correlhã ) durante 5 anos, orientando as equipas de iniciados, juvenis e juniores, ou seja, percorri todos os escalões de formação.


        Entretanto, em 2009, realizei o curso de II Nível de treinadores de Futebol (UEFA B).


       Em relação a medalhas e méritos, deixo para as pessoas que conhecem o meu trabalho essa análise. No entanto, considero que ajudei todos os “miúdos e graúdos” que comigo trabalharam a serem melhores em todas as dimensões. Penso que os ajudei a crescer em termos táticos, técnicos, físicos, mas também em termos mentais, ministrando-lhes os ensinamentos que entendo serem os melhores para o seu crescimento competitivo e para o seu desenvolvimento humano.




       O futebol, como todos sabemos, não se resume a jogar à bola. Tem sempre algo mais a oferecer e algo mais a descobrir. Como vê o futebol, dentro e fora das quatro linhas?


        Primeiro ponto, o Futebol para mim é paixão! Paixão pelo jogo, paixão pelo treino. Só quem trabalha no Futebol, consegue perceber a realização que é ver acontecer no jogo aquilo que se treinou durante a semana.


        Como sabes, sou um obcecado pelo treino, pois vejo-o como um processo ensino-aprendizagem constante. Em todos os treinos procuro proporcionar ensinamentos, mas também procuro recebê-los! Este processo dinâmico de ensino-aprendizagem é essencial para manter a “chama acesa”. Quando o processo estagna, perde todo o interesse! Isto acontece também em todas as outras vertentes da vida de cada um, há uma necessidade constante de surpreender e de sermos surpreendidos… no Futebol, passa-se exactamente a mesma coisa. Os jogadores têm o condão de nos surpreender todos os dias, em todos os treinos, em todos os jogos, e o treinador tem que estar preparado para reagir da melhor forma aos acontecimentos. Ser treinador é planear, refletir, sistematizar princípios de jogo, mas também é ter a capacidade de decidir e gerir relações... Por isso, é que nem todos os treinadores atingem o top e por isso é que muito menos ainda se conseguem manter a top.


        O Futebol, tal como dizia o mestre Vítor Frade, é um fenómeno antropo-social total! O Futebol não pode ser visto de forma descontextualizada… Muitos treinadores esquecem este “pormaior” e regem-se pelas suas convicções, esquecendo todo o contexto histórico, social, económico… Cada Futebol enquadra-se em determinado contexto, não há apenas um Futebol, há vários “Futebóis” e essa capacidade de perceber o contexto que, muitas vezes, marca a diferença entre o êxito e o fracasso. Considero que o Futebol é um fenómeno complexo, caótico, sendo que o treinador é um dos intervenientes a quem compete por ordem!




        Um dos assuntos mais estudados do momento, é sem dúvida a periodização tática. Treino com bola e periodização tática são diferentes. Porquê?


        Completamente diferentes.

        Na minha monografia, procurei, através de um revisão bibliográfica aprofundada, estabelecer diferenças e pontos de contacto entre as várias metodologias de treino aplicadas no Futebol durante a sua história. Na verdade, identifiquei 4 tendências concepto-metodológicas de treino: tendência oriunda dos países do Leste da Europa (a mais antiga e conceptualmente ligada aos desportos individuais, como o Atletismo); tendência oriunda dos países do Norte da Europa (muito ligada aos crescimentos físico e desenvolvimento biológico dos jogadores); Treino Integrado (dando relevância ao “jogo” durante o processo de treino, mas sem a existência de um modelo de jogo orientador de todo o processo) e finalmente a Periodização Tática (metodologia desenvolvida pelo professor Vítor Frade há cerca de 30 anos e que tem o modelo de jogo como farol de todo o processo de treino). Posso afirmar que, respeitando todas as tendências de treino, nenhuma se pode equiparar à Periodização Tática (PT). Os pontos de contacto entre as outras três e esta são praticamente existentes. No entanto, volto a frisar, respeito todos os profissionais que seguem outras tendências de treino. Apenas defendo que a PT é a única que me preenche, pois baseia-se no tal processo ensino-aprendizagem constante de que anteriormente falei.


       Treinar com bola, como tu referiste na questão, não chega, não serve de nada… tem que haver uma ideia de jogo, um modelo de jogo! O treinador tem que definir princípios de jogo para os 4 momentos de jogo e depois treinar em cima disso! O facto de denominarmos esta tendência de treino de Periodização Tática, não significa que apenas se procure desenvolver o “tático”! Pelo contrário, há que ter a noção que o tático, para crescer, necessita do técnico, do físico e do psicológico! Procura-se é trabalhar estas dimensões em conjunto, num sistema complexo, ao invés de as separar.


        Gostaria de aprofundar mais o tema da PT, de falar dos princípios que a regem, mas considero que isso seria abusivo para com o mestre Vítor Frade… para falar de PT só mesmo ele, com toda a paixão e entusiasmo que o caracteriza. Ele é o visionário que em determinada altura decidiu romper com a “carneirada” e trilhar o seu próprio caminho! Foram as suas leituras, foi a sua experiência de vida que o fez perceber que, ao contrário do que já na altura se dizia, no Futebol nem tudo está inventado…


        Permite-me só mais um aparte, hoje em dia, constato essa mesma necessidade de romper com a “carneirada”, mas de uma outra forma… romper com as receitas (entenda-se, exercícios de treino, princípios de jogo, estratégias de jogo, etc, etc…;) que se encontram na internet… muitos procuram na internet os seus exercícios de treino e aplicam-nos, muitas vezes sem qualquer ponta de sentido! Exige-se aos responsáveis pelo treino que reflitam, que pensem e elaborem a melhor forma de ensinar o jogo pretendido!




        Mas, a periodização tática é muito mal compreendida. Acredita-se que é necessário criar uma forma física invejável para ter uma equipa de sucesso, quando na realidade a forma desportiva depende da forma física específica e da forma mental. Esta afirmação, é verdadeira ou falsa? E porque?


       Valter, se eu fosse treinador de Atletismo, Ginástica ou Canoagem, preocupar-me-ia em criar uma forma física invejável em todos os meus atletas. Como professor de Educação Física, sei perfeitamente como fazê-lo. No entanto, tu procuraste-me enquanto treinador de Futebol e dessa forma, vou apenas dizer-te que respeito todas as opiniões, mas tenho o direito de discordar veemente de algumas… Para mim não existe forma física nem forma mental! Existem patamares de rendimento competitivo que se expressam em jogo na aplicação dos princípios do modelo de jogo treinados, consubstanciados pelos respetivos resultados desportivos. Tudo o que vai para além disso, para mim é história para enganar o “Zé povinho”!




       Vamos supor que temos duas equipas: a primeira tem uma forma física excecional, com jogadores capazes de correr dois jogos seguidos, e a segunda equipa tem uma forma física nos padrões normais, mas está bem preparada taticamente, através da periodização tática. Qual seria o prognóstico para este jogo?


        O prognóstico seria o seguinte: a equipa suoer-hiper-mega bem preparada fisicamente, no final do jogo, estaria de rastos… a equipa possuidora de uma organização de jogo evoluída estaria preparada para fazer outro jogo em seguida…




       Finalmente, jovens como eu, sonham ou querem um dia trabalhar no futebol por muitas razões. Qual é o melhor conselho para quem está a iniciar no futebol?


       Como diria António Gedeão, “ o sonho comanda a vida”! O meu conselho é nesse sentido, segue a paixão pelo Futebol, investe, reflete e marca a diferença por uma visão própria… distingue-te da ”carneirada”. Quem sou eu para dar conselhos a alguém, mas na minha opinião, o futuro de qualquer pessoa no Futebol não depende apenas da competência pessoal, depende de um enorme leque de fatores extra… Para te dar um exemplo, hoje em dia, olho para os bancos da primeira liga e vejo gente muito competente, gente que subiu degrau a degrau, a “pulso” como se costuma dizer… e vejo gente que caiu de paraquedas, amparado sabe-se lá bem por quem (aliás, em muitos casos, sabemos muito bem por quem). Pior ainda, vejo gente com grande capacidade, fora de órbita, completamente empurrados para fora do Futebol. Mas lá está, o Futebol, como fenómeno antropo-social total que é, reflete tudo o que de bom e mau se passa na nossa sociedade.

       A ti, desejo-te a maior das sortes no Futebol e não desistas, porque eu também não desistirei.

       Bem-haja!

 

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Categories: Treinadores e Entrevistas

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