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Entrevista exclusiva a Nuno Ventura, autor do livro Observar para Ganhar

Posted by Valter Correia on August 8, 2013 at 6:45 AM

       Falando mais uma vez no futebol, sabemos que este está em constante evolução, buscam-se sempre novas formas de evoluir, treinar, e novas estratégias para aproximar as equipas do máximo rendimento. Com isto, os departamentos de Scouting dos maiores clubes têm sido extremamente evoluídos, no sentido de fazer uma análise completa da realidade da competição onde esse clube se encontra. Finalmente, vários gestores no futebol tem compreendido as vantagens de ter dentro do clube uma fonte de informação acerca adversários e própria equipa. Desta forma, o Scouting torna possível conhecer melhor os adversários contra os quais a nossa equipa vai jogar, torna possível conhecer melhor a própria equipa através de uma longa e completa análise, assim como encontrar jogadores que possam reforçar o clube e com isso transformarem-se em ativos financeiros. Observar para ganhar é atualmente um dos melhores e mais prestigiados livros em Portugal com o Scouting como tema principal, e o seu autor, Nuno Ventura, aceitou o nosso convite para ser entrevistado. Segue a entrevista exclusiva a Nuno Ventura, autor do livro Observar para ganhar.


 

Entrevista exclusiva a Nuno Ventura, autor do livro Observar para Ganhar


       Teoria do Futebol (TDF) - Olá Sr. Nuno, aqui estamos nós para falar de futebol, Scouting e do seu livro, Observar para ganhar. Como está o Nuno?

       Nuno Ventura (NV) - Olá, antes de mais obrigado pelo convite endereçado. É um prazer estar a colaborar com o site Teoria do Futebol. Queria deixar os meus parabéns pelo excelente espaço de partilha sobre futebol que criaram.

 

       TDF - Continuando, ao fazer a análise das várias equipas, podemos ter uma ideia se a competição que vamos enfrentar é composta por muitas equipas ofensivas, defensivas ou equilibradas, ou ainda se é uma competição composta por por equipas físicas ou equipas técnicas. Para o treinador, este tipo de informação coletado pelos observadores, é vantajoso para criar uma equipa?

       NV - Não vou muito por aí, é importante para a equipa técnica possuir informações sobre os seus adversários, mas não para criar a sua equipa. Quero com isto dizer que o treinador tem de criar a sua equipa de acordo com as suas ideias e com a identidade do clube onde trabalha. A partir deste ponto, aí sim, o conhecimento que tem sobre as características das equipas que irá defrontar, podem ser úteis, nomeadamente na preparação para o jogo contra determinada equipa.

 



       TDF - Mesmo fornecendo uma informação de que tipo de competição vamos enfrentar, não é ainda um momento para fornecer informações detalhadas. Essa altura é para períodos antes dos jogos, para o treinador preparar o jogo. Sabendo nós que os observadores entregam análises aos treinadores para estes prepararem os jogos, estas análises, devem ser o mais completas possíveis, devem fornecer apenas os pontos-chave que o treinador pediu, ou depende do contexto?

       NV - Aqui, neste ponto, no meu entender, depende muito do tipo de relação que existe entre a equipa técnica e o observador. Se o observador pertence à equipa técnica (recomendado), ou se apenas elabora os relatórios das observações, não tendo contacto diário com a equipa técnica. Em ambas as situações, o observador deve elaborar o relatório de observação em conjunto com a equipa técnica, e aí definirem o que se pretende extrair na observação. No entanto, há alturas da época, condicionadas por momentos psicológicos, classificação, etc, que a quantidade de informação pode ser diferente.

 

       TDF - E quanto tempo demora a fazer uma boa análise de uma equipa?

       NV - Uma boa análise, pode demorar algumas semanas a ser elaborada, dependendo do número de jogos que se observe ao vivo. Sendo que esta observação, tem de ser complementada com o recurso ao vídeo. No meu entender, a observação de uma equipa por apenas um jogo, pode induzir o observador em erro, e consequentemente o treinador. Mas, tudo isto, depende das condições que o clube dispõe, sabemos que o ideal não é a prática na maioria dos clubes, muito por questões financeiras.

 

 

       TDF - Conte-nos um pouco da sua carreira. Como se sente ao ter uma "medalha de ouro" de 17 anos como jogador? Certamente que muitos não conseguem....

       NV - O futebol foi sempre uma paixão, desde miúdo. Cresci a jogar futebol na rua. Tentei ao máximo conciliar o futebol, com os estudos, procurando não descurar estes. Ainda hoje quando vejo uma bola, a primeira reação é tocar nela e entreter-me um bocado.

 

       TDF - Aspirações para o futuro?

       NV - O futuro é uma incógnita. No entanto, todos temos os nossos sonhos, e o meu passa por dedicar-me 100% ao futebol profissional. Ambição não me falta, agora falta surgir a oportunidade certa. Não entrar num projeto, só por entrar. Entrar sim por me rever nesse projeto, e por considerar que tenho algo para acrescentar de positivo a esse projeto.

 


 

       TDF - E como jogador e observador, reconhece que a visão dentro e fora do campo é totalmente diferente. A maior parte dos adeptos não sabe, mas dentro do campo vemos uma situação para onde os nossos olhos estiverem voltados, com mais rigor e coerência, mas fora, do campo, apesar de ver ambas as equipas por completo, torna-se difícil fazer uma análise aos pequenos detalhes. Concorda? E porquê?

       NV - As visões são diferentes, isso concordo. Mas não há nada como observar um jogo de um patamar elevado. Aí sim, temos uma visão sobre todo o relvado e sobre tudo o que se passa no jogo. Muitas das vezes pode não se dar atenção aos pequenos detalhes, mas penso que esses pontos é que distinguem a qualidade de um observador. Convém não esquecer, que o "olhar" de um observador para o jogo, deve ser diferente do "olhar" do adepto. Para o adepto o que interessa é a vitória, para o observador há todo um conjunto de fatores que interessam, e que passam à maioria do espetador comum.



 

 

       TDF - Qualquer jogador vive sempre os jogos com diferentes emoções dos treinadores, adeptos e outros, emoções essas como raiva, vontade de vencer, alegria. Quando a carreira muda de jogador para treinador ou observador, essas emoções podem afetar o novo trabalho?

       NV - Penso que o que pode influenciar é o caráter da pessoa. Porque todos querem obter a vitória. Agora, o sentimento que nutres pelo clube que defendes, aí sim, é que pode ser diferente de um jogador para um adepto. Mas acima de tudo, os jogadores, treinadores ou observadores devem ser profissionais, e defender sempre o clube que representam.

 

       TDF - Outra "medalha de ouro" mais difícil de atingir, pelos menos para grande parte de quem trabalha no futebol, é sem dúvida a sua profissão atual, fazendo parte da equipa de observação do SL Benfica. Como é trabalhar para um dos grandes do futebol português?

       NV - A minha colaboração com o SL Benfica, passa pela deteção e identificação de possíveis talentos para as equipas da formação do clube. É um grande desafio tentar descobrir um novo Rui Costa ou o novo Eusébio. Acima de tudo o que se pretende é selecionar os melhores e fortalecer as equipas de formação do clube.

 

       TDF - Agora vamos falar um pouco do livro Observar para ganhar - o Scouting como ferramenta do treinador. O que o levou a escrever o livro?

       NV - Bom, a escrita do livro, foi um desafio colocado pelo Júri da minha tese de mestrado, que após a defesa da mesma, colocou-me esse desafio face à qualidade do trabalho. Depois de amadurecer a ideia, entrei em contacto com a editora Prime Books, e desde a primeira reunião que resolvemos avançar para este livro. Agora, passado um ano e meio, penso que tomei a decisão certa, pois penso que o livro vem colmatar uma lacuna que existia no mercado. Pois, trabalhos ou livros sobre Scouting são raros ou não existem mesmo. Aqui queria deixar mais uma vez o meu agradecimento a todos os que possibilitaram que este livro fosse uma realidade: professores e colegas do mestrado, amigos, treinadores que participaram na obra, à editora Prime Books, e à minha família.

 

       TDF - No capítulo 2, intitulado O Scouting como um elemento central no suporte ao rendimento, o Nuno refere a observação direta, indireta e a mista. Que vantagens podemos tirar de cada um destes tipos de observação?

       NV - Bom a observação direta, tal como o nome indica, é aquela em que o observador se desloca ao estádio para observar o jogo. Com esta observação, pode verificar situações como o estado do relvado, o comportamento dos adeptos, a visualização de todo a área do campo, entre outras, que só são possíveis neste tipo de observação. A Observação indireta, é aquela em que se recorre ao vídeo do jogo. Aqui podemos ir ao detalhe, pois o vídeo é uma ferramenta que nos permite ver e rever as vezes que quisermos as ações do jogo. Algum acontecimento que possa ter escapado na observação direta, pode ser visionado e identificado neste tipo de observação. A observação mista, vai buscar as vantagens de ambos os outros dois tipos de observação.

 



       TDF - Sabemos também que o departamento de Scouting pode e deve ter várias funções dentro de um clube, desde a observação de adversários até à pbsrvação da própria equipa. Que tipo de funções podemos encontrar num departamento de Scouting?

       NV - Depende muito da estrutura do clube e da forma como ele se organiza. Tem-se a ideia de que este departamento, tem como funções, tal como referiste e bem, realizar a observação da equipa adversária e da própria equipa. No entanto, não se ficam por aqui as suas funções. Também ao nível da prospeção o departamento de Scouting pode ter uma palavra a dizer. Mas volto a referir, tudo depende da sua organização. No meu entender, o departamento deve estar dividido em dois pólos: rendimento e recrutamento. No pólo rendimento, ter a seu cargo a observação e análise de equipas e dos jogadores. No recrutamento, tratar da prospeção de jogadores para o clube. Convém referir, que nos grandes clubes, este trabalho é feito para todas as equipas, desde a principal às da formação.

 

 

       TDF - Decidi desta vez abrir uma página à sorte, e terminei na página 110, que refere 5 momentos críticos do jogo, entre os quais o golo, a atuação do árbitro, as limitações de um jogador, a organização da equipa e o tempo de jogo. Todo este tipo de trabalho, como sabemos, deve constar no relatório. Depois, ao fundir este tema com a breve história apresentada na página 93, que destaca a forma como Mourinho parece antecipar o que vai acontecer no jogo, onde adivinhou uma substituição e uma expulsão, fica a dúvida: é possível prever praticamente todos os acontecimentos que se vão desenrolar durante uma partida de futebol?

       NV - Todos os acontecimentos, acho que não. Até porque estamos a lidar como pessoas, e não com máquinas. Mas muitos dos acontecimentos, o treinador pode prever, se tiver feito bem o trabalho de casa, ou seja, se tiver informações com qualidade sobre os comportamentos normais que a equipa adversária apresenta. Agora, tudo isto pode falhar, tal como disse, porque lidamos com pessoas, e porque o jogo de futebol é imprevisível. Quem trabalhar bem a sua equipa e conhecer bem a equipa adversária, pode estar mais perto de ganhar, disso não tenho dúvidas.

 

       TDF - E quanto ao número de jogos que devemos observar para ter um relatório completo e detalhado, pela sua experiência, quantos devem ser?

       NV - Diria que três jogos ao vivo (2 na condição que vamos defrontar o adversário e um em situação contrária), complementados com o recurso ao vídeo de outros jogos dessa equipa. Caso seja necessário, pode-se sempre recorrer a mais uma observação.

 

       TDF - Finalmente, aproveito para parabenizar o Nuno Ventura pelo excelente livro, a quem e ao qual desejo muito sucesso. Aos mais novos, que pretendem seguir carreira de Scouting, gostaria de deixar um conselho?

       NV - Obrigado pelas palavras de elogio ao livro. Para quem pretende iniciar uma carreira nesta área, penso que o melhor conselho que posso dar, é que observem muitos jogos, não como adeptos, mas mais como treinadores/observadores. Com o visionamento de jogos, uns atrás de outros, começamos a entender melhor o jogo. O jogo diz-nos tudo o que pretendemos saber. Outro conselho é estar sempre atualizado, no que a bibliografia diz respeito. Para os interessados deixo o site do livro, onde podem acompanhar todas as novidades sobre o mesmo: www.observarparaganhar.com. Mais uma vez obrigado pelo convite.


       Quero agora agradecer publicamente, a disponibilidade e colaboração do sr. Nuno Ventura, pela entrevista que nos foi concedida. Aproveito para convidar o leitor a comprar o livro na FNAC, ou a visitar o site do entrevistado, www.observarparaganhar.com. Um bom haja a todos


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Categories: Treinadores e Entrevistas

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